"Eu, Leonardo Guimarães, Juro pela minha honra e por Deus, dizer a verdade e somente a verdade"
Em outros tempos, Leonardo teria sentido uma grande vontade de dar risada, vendo um réu jurando em nome de Deus e com uma bíblia na mão, porém isso foi antes dos acontecimentos do ultimo ano, agora tudo estava diferente, todas as suas antigas crenças estavam mudando, e ele não conseguia mais distinguir o real do imaginário, chegou a pensar que estava ficando louco, mas seu raciocínio lógico não permitia acreditar nessa versão, mesmo sabendo que ela seria infinitamente mais simples, que ele poderia apenas dizer que estava louco e passar o resto dos seus dias internado sob o efeito de drogas, mas nunca conseguiu se esconder, desde pequeno Leonardo nunca soube fugir de uma briga ou se esconder atras dos outros, por essa razão se via em um tribunal, jurando perante o Juiz, promotoria, uma série de jurados e testemunhas.
Ele conseguia ver todas as pessoas olhando para ele com extremo desprezo, cada vez que a porta do tribunal abria, era possível escultar ao fundo o som de gritos "MONSTRO, ASSASSINO, FILHO DA PU..." entre diversas outras ofensas das quais não vale a pena citar, o mundo estava contra ele. Mas não foi sempre assim, em um canto obscuro de sua mente, ainda conseguia se lembrar dos dias de glória, dos dias em que fora "Ô" advogado do Brasil, havia vencido 100% dos seus casos, com 5 anos exercendo a profissão já era sócio de uma importante firma de São Paulo, com pouco tempo de trabalho, não se submetia a qualquer caso, era capaz de escolher aqueles que ele considerava justos e que realmente mereciam uma defesa, dessa forma conseguiu o respeito e a gratidão da população Brasileira, chegou a ser cogitado como político durante um tempo, afinal a população precisava de um homem honesto na política, mas rapidamente rejeitou qualquer filiação a partidos políticos, gostava de ter sua independência e tinha amor pela advocacia.
_Leonardo Guimarães, por favor poderia nos dizer onde o senhor estava na noite do dia 25 de setembro?_ (Perguntas de sempre, tentando provar que eu estava no local do crime, como se todos já não soubessem a verdade)_ Deitado em minha cama ao lado da minha esposa.
_ O Senhor saiu algum momento do seu quarto...
_ Desculpa lhe interromper Sr. Carlos Ignácio, porém, Vossa Excelência, eu poderia fazer um breve depoimento antes de começarem as perguntas? acredito que vamos ganhar tempo.
O Promotor Carlos corou com a interrupção e pensou em pedir protesto, porém o olhar do Juiz dizia mais do que as palavras, sem dúvida ele e todos queriam escultar o que Leonardo tinha a dizer, afinal de contas já faziam 3 meses que ele não pronunciava uma palavra sobre o caso ou o que de fato havia ocorrido. Carlos voltou para o seu lugar, se sentou e aguardou que Leonardo iniciasse seu depoimento.
_ Vossa Excelência, Sr Carlos, conforme conversamos na audiência preliminar, não estou aqui para tomar o tempo de ninguém, vou contar uma história, ou melhor a minha história, devo tomar algum tempo nela, admito, porém depois de explicada, acredito que os jurados vão conseguir ter uma opinião muito clara do que de fato ocorreu e poderemos encurtar em muito esse julgamento, prometo Carlos, que finalizado o meu depoimento, você vai ter o que deseja, eu fora das ruas, já adiantando pode ficar tranquilo, porque independente do que aconteça, você não deve perder esse caso_ A porta abriu e mais uma vez Leonardo conseguiu escultar a multidão gritando palavras "bonitas" para ele_ Muitas coisas que eu vou contar, eu não me orgulho e se eu pudesse voltar no tempo, com certeza não faria novamente, mas espero que tenham um pouco de paciência e tentem compreender, eu era imaturo, e não tinha a mínima noção dos meus atos_ Os olhos dos jurados continuavam com uma expressão de ódio por traz de uma tentativa de manter a imparcialidade, tirando um rapaz que parecia simpatizar com ele, o restante estava achando tudo aquilo uma perda de tempo, pois já tinham definido a pena máxima de 30 anos para ele, mas independente da opinião dos jurados e do público em geral, Leonardo precisava contar a sua história_ Nasci no Rio Grande do Sul, em uma pequena cidade cujo o nome e a importância não vem ao caso, afinal, com 14 anos mudei para Porto Alegre e fui estudar em um colégio de internato, nunca consegui me ver em uma cidade pequena a vida toda, durante os meus anos de internato sofri bullying e fiz muito bullying, jovens garotos morando sozinhos, aprontam diversas brincadeiras com os demais, porém todas eram relativamente leves, algumas devem ter deixado pequenos traumas, mas nada que realmente impactasse a vida de uma pessoa, pelo menos espero que não_ Leonardo sempre teve uma boa oratória e apesar do rancor inicial, conseguia ver os jurados olhando com mais atenção para o seu depoimento_ Porém, uma dessas brincadeiras, foi um pouco mais pesada, quem mora no estado do Rio Grande do Sul, provavelmente já escutou a história de que se você pegar o cogumelo que cresce na bosta da vaca depois do quinto dia que choveu, você pode fazer um chá e ficar relativamente louco, com 16 anos eramos jovens e fazíamos de tudo pelo prazer e pela diversão, um amigo nosso, Bruno era o que mais sofria de brincadeiras, todo grupo de jovens sempre tem aquele esquisito que quer interagir, mas sempre faz os comentários mais infelizes e tem as piores atitudes, todas as "brincadeiras" sempre terminavam acontecendo com ele, por mais que ele tentasse, sempre voltava para ele.
_Protesto Vossa excelência, essa história de criança não vai nos levar a lugar algum
_ Vossa excelência essa história é fundamental para que todos possam compreender a natureza do que ocorreu nesse caso.
_Protesto negado, por favor Leonardo, prossiga, mas seja breve.
Sem dúvida, ser um excelente e respeitado advogado, traz alguns benefícios.
_ Continuando... Certa vez apostamos com ele, que se quisesse fazer parte do nosso grupo, "os heróis do Internato" ele deveria passar por uma iniciação, deveria tomar um chá de cogumelo da vaca, ele prontamente negou, mas depois de colocarmos pressão e confirmarmos que todos haviam tomado para fazer parte do grupo ele aceitou, deixamos a missão de colher os cogumelos para Alex, pois era o mais louco do grupo e dizia saber onde encontrar. Esperamos ansiosamente por um dia que tivesse chuva, e ainda mais ansiosos os 5 dias posteriores, quando Alex chegou com os cogumelos, ninguém se preocupou em perguntar se eram realmente bons para fazer chá, ou se haviam sido colhidos da bosta da vaca, todos estávamos loucos para ver as reações de Bruno após provar o chá, preparamos e oferecemos, novamente ele tentou negar, mas como a mente jovem é fraca, colocamos pressão e convencemos ele a tomar, a sensação foi incrível, apesar de ser um humor negro, não me recordo de ter dado tanta risada na minha vida, como naquela tarde, Bruno tirou toda a roupa e começou a correr pelado, subiu no telhado da republica e gritava palavras em inglês, rolou no chão, tentou mergulhar no lago e continuou por horas nessa loucura. Depois de algum tempo aquilo começou a nos cansar, então deixamos ele no quarto e saímos, porém as horas passaram, os dias passaram, no começo pensamos que fosse uma brincadeira do Bruno, mas logo percebemos que a brincadeira havia se tornado algo sério, Bruno não respondia nada com sentido, tinha alguns breves momentos de lucidez, mas logo voltava a uma loucura total, tentamos fazer ele responder e voltar a ser o nosso amigo, mas nada adiantava, em um desses momentos de lucidez, ele conseguiu informar a mãe dele, o que havia ocorrido. É interessante como a mente humana funciona, ele não se lembrava de praticamente nada, porém o nome de cada um de nós e de como tínhamos duvidado que ele tomaria o chá, continuou claramente na cabeça dele.
_ Leonardo, todos já percebemos como desde pequeno você era uma criança perversa e que curtia alucinógenos, mas isso não vem ao caso desse julgamento.
_Carlos, me desculpe, por favor tenha paciência, estou chegando na parte importante da história, e garanto que tudo vai fazer sentido. Continuando... Diversos doutores tentaram ajudar, padres tentaram benzer, mas nada surgia resultado, durante o tempo que mantive contato com Bruno, que não foi pouco, foram 2 anos, ele continuou louco e com diversos distúrbios, sendo honesto, duvido muito que ele tenha voltado ao normal. Mas essa não foi a parte complexa da história, que envolve esse caso, a pior parte estava relacionado a mãe dele, ela era conhecida por todos por ser uma velha bruxa, todas as mães contavam histórias de terror para amedrontar os filhos com a velha senhora Cardoso, não cresci naquele Bairro em Porto Alegre, e nunca tive medo de histórias de terror, mas já havia escutado diversas histórias sobre a mãe do Bruno e sobre como as crianças mais novas temiam ela. Depois que Bruno contou para a sua mãe, a famosa sra Cardoso sobre como ele havia ficado naquele estado, ela como qualquer mãe ficou irada e foi tirar satisfação com nosso grupo de amigos. Consigo me recordar como se fosse hoje, ela nos encontrando na rua encostados no muro e ameaçando nós 5, todos ficamos com medo, principalmente Alex por ter sido o responsável por pegar os cogumelos, apesar do medo, eu não havia crescido escutando historias de terror sobre ela, e não conseguia ficar quieto, me adiantei e debati com ela, disse que não havíamos obrigado o Bruno a fazer nada, que tudo o que ele fez foi por conta própria. Eu digo em nome de Deus senhores jurados, se eu soubesse onde aquilo iria parar, eu jamais teria desafiado aquela mulher, porém novamente, eu não tinha ideia das consequências. Assim que terminei de falar, os olhos negros da Sra Cardoso brilhavam, o cabelo grisalho mal penteado, parecia ainda mais arrepiado, as roupas escuras e sujas pareciam ainda mais com as roupas de uma bruxa da Disney, a veia do pescoço saltava para fora, e sua velha mão tremia, ficamos em silêncio nos encarando por um longo e interminável tempo, hoje quando tento me lembrar de tudo, parece que ficamos horas naquela situação, ainda me pergunto, se eu tivesse pedido desculpas naquele momento, talvez nada de ruim tivesse acontecido, mas eu não pedi desculpas, meu orgulho era soberano, e continuei encarando a Sra Cardoso, sem dizer mais uma única palavra.
Finalmente, ela voltou a falar, sua voz parecia ainda mais rouca, e sua expressão era capaz de colocar medo até no mais valente dos homens.
"_Seus merdinhas imundos, acham que são alguma coisa? acham que entendem da vida? pegar o meu pequeno e querido filho e dar cogumelos para ele? intoxicar uma criança inocente? eu deveria ter processado vocês e suas famílias, mas isso não seria castigo, isso não seria nada, nunca acreditei nas leis dos homens, sempre preferi as leis do mundo, e nessas leis, meus queridos imundos, eu sei como punir cada um, vocês 3 vão morrer antes de terem os prazeres da vida, antes de atingirem a maior idade, antes de terem um momento de verdadeira felicidade, agora você Alex,(não sei como, mas ela sabia nosso nome) você não.... você foi o culpado, aquele que trouxe os cogumelos, você vai morrer também, mas não de uma forma simples, você vai sofrer, em nome do meu Sr do Inferno, eu quero que você sofra, cada minuto antes de sua morte, quero que sinta tanta dor que vai implorar para ser morto, mas ainda assim não vai ser, você só vai descansar, quando assim como meu filho, você perder a consciência do que é real, e todos a sua volta tiverem te abandonado. Por ultimo, você meu amigo metido, você poderia morrer como os demais, rápido e sem sofrimento, mas pelo seu gosto por desafios, vou lhe deixar viver, mas garanto, você vai pagar por isso, não hoje, nem amanhã, mas no dia que você acreditar estar feliz e que não quiser mudar nada da sua vida, eu vou aparecer e fazer você sofrer como nunca imaginou que fosse possível, lhe garanto verme, os crimes do passado SEMPRE são julgados,
Enquanto a senhora Cardoso pronunciava suas palavras, Leonardo tinha a nítida impressão de estar vendo uma grande sombra negra crescendo ao lado dela, uma sombra confusa, ela parecia ter um chifre saindo da cabeça e uma longa calda, por alguma razão aquilo não parecia humano. Durante os anos que se passaram, ele sempre se perguntou se havia realmente visto aquela sombra ou se era apenas uma imaginação sua, uma distorção dos fatos.
Todo o tribunal estava em silêncio, todos prestavam muita atenção em cada palavra que Leonardo dizia, seus olhos estavam cheios de lágrimas, enquanto ele fazia o possível para se manter firme e continuar sua história.
_ Quando a Sra Cardoso terminou de rogar a praga em nós, ficamos em silêncio durante algum tempo, todos refletindo sobre as palavras e sobre o que havíamos acabado de ver, ainda me pergunto se minha mente não ficou confusa com o passar dos anos, mas hoje sinto que tinha algo sobrenatural naquela mulher, algo que estivesse junto com ela naquele momento_ Leonardo se levantou da cadeira_ Senhores, cada palavra que estou dizendo, é a mais absoluta verdade, por favor fiquem a vontade para pesquisar nomes e afins após o termino do meu depoimento,sei que alguns detalhes vão parecer fantasiosos no decorrer da história, mas garanto, são verídicos. No dia seguinte, tudo parecia normal, tudo estava no seu devido lugar, até chegarmos a sala de aula e descobrirmos que o carro que os nossos 3 amigos estavam havia batido, nenhum deles sobreviveu, diziam que o sistema de freios havia falhado, e que eles entraram embaixo de um caminhão. Hoje me pergunto, se não teria sido melhor morrer naquele carro com eles, mas não tive essa opção. Após a notícia tanto eu quanto Alex não conseguimos deixar de lado o pensamento sobre a Sra Cardoso, lembro que passamos o dia debatendo sobre o que deveríamos fazer, até que no término da tarde, resolvemos ir falar com ela e tentar pedir desculpas. Nessa altura ambos estávamos tremendo de medo, pois nossos melhores amigos já estavam mortos e por teoria Alex começaria a sofrer em breve, quando chegamos na casa da Sra Cardoso, encontramos diversos carros na porta incluindo alguns carros de polícia, ficamos com medo, Alex imediatamente fugiu, correu para sua casa, mas eu decidi ficar e tentar descobrir o que estava ocorrendo dentro da velha casa. Assim que eu pensei em abrir a maçaneta um policial saiu bebendo um copo de café e comendo algo que parecia ser um salgado, lembro que ele tentou me expulsar, mas sempre tive boa dicção e após alguns momentos complicados, já estávamos conversando como amigos, ele era jovem e também havia estudado no internato e assim como eu, também conhecia algumas histórias sobre a Sra Cardoso. Ele comentou que finalmente ela havia se superado:"Uma irmã ligou para a polícia, contando que encontrou a Sra Cardoso morta, quando chegamos para investigar ela estava deitada sobre um tapete negro, com um pequeno altar em sua frente, acima do altar era possível ver um crucifixo virado ao contrário, deve ter se soltado ou coisa parecida, ela estava com um punhal cravado no peito e um bilhete na mão, sem dúvida havia sido suicídio" minha primeira reação foi entrar em desespero, mas tentei manter a calma perante o policial e perguntei o que estava escrito, " era bem curto e não sei ao certo o que queria dizer, mas era algo como: "O Sangue é sagrado, para se ter sangue é necessário sacrificar sangue"
Leonardo começava a notar uma leve apreensão nas pessoas do julgamento e começava a sentir o medo nos olhos, uma das juradas estava alisando os braços, visivelmente se recuperando de um arrepio, ele aproveitou o momento e voltou a se sentar no banco, tomou um copo de água, enquanto as pessoas olhavam para ele e voltou a contar sua história.
_Depois do incidente Bruno foi morar com a tia e depois de alguns anos eles se mudaram, até onde me lembro ele continuou com problemas mentais, nunca se recuperando. Um ano depois desse caso, Alex adquiriu uma raríssima doença, a Porfiria Cutânea, acredito que muitos aqui jamais tenham escutado falar de tal doença, mas garanto a todos, ela é real, eu trouxe comigo um envelope contendo algumas fotos do Alex depois de algum tempo que adquiriu a doença_ Leonardo abriu com calma um envelope e retirou duas fotos, o rosto do seu amigo não parecia humano, era uma mistura de vampiro com os mortos vivos encontrados em The Walking Dead ou Resident Evil, ele parecia um zumbi, com pelos em diversos lugares do rosto, os dentes apodrecidos a mostra e o sangue dos diversos hematomas saindo pelo seu rosto, todos os jurados olhavam com nojo e espanto aquelas imagens, era nítido que o medo estava estampado no rosto de cada um deles_ Senhores, essa rara doença é uma das piores que eu tive o desprazer de ter visto, guardava essas fotos, por ter medo de olhar, mas juro que nos últimos 10 anos, não olhei uma única vez se quer para elas, pois a imagem ainda hoje me deixa triste e perturbado. Algumas pessoas dizem que essa doença foi a responsável pela criação dos vampiros e lobisomens, uma vez que a pele fica tão sensível que o indivíduo começa a andar somente na escuridão e os hematomas e os pelos crescendo, eles realmente perdem a feição humana para se tornar algo animalesco, esse sofrimento durou muito tempo para Alex, até que ele finalmente morresse, assim como a velha Sra Cardoso havia prometido.
Leonardo bebeu mais um copo de água enquanto se recuperava
_Me desculpem por todo o tempo contando essas histórias, mas era fundamental para chegar onde quero chegar, Depois desse incidente a vida continuou, eu lembro que passei a frequentar a igreja, me confessei para um padre que disse que todos os meus pecados estavam perdoados, durante um bom tempo continuei com medo, mas após tanta felicidade, eu duvidava que algo de ruim pudesse acontecer, comecei realmente a achar que o velho padre havia retirado a minha maldição. Consegui entrar na faculdade que eu desejava, exerci minha profissão da forma que eu queria, me casei com a melhor esposa que eu poderia ter e tive uma linda filha, tudo não poderia estar melhor.
Carlos se levantou e sem esperar falou alto.
_Agora é a hora que você conta para todos sobre a sua amante Clarisse?e de como estava fazendo planos para morar junto com ela, no lugar da sua querida família?
Sem dúvida o tribunal não estava ciente dessa afirmação, todos estavam olhando para ele boquiabertos, no momento que eles começavam a ficar comovidos com a história.
_Sim, Carlos, ela também vai entrar na história, como disse no começo do meu depoimento, nunca fui santo e sempre cometi diversos erros na minha vida, tive essa amante e mais uma, Letícia, mas nunca prometi para nenhuma delas que algum dia iria largar minha família, e nunca cheguei a ter algo sério com elas, apenas utilizava como diversão.
_DIVERSÃO ESSA QUE RESULTOU NA MORTE DA SUA ESPOSA E DA SUA FILHA_ Carlos estava gritando e aproveitando o momento para garantir que todos voltassem a ter o ódio inicial de Leonardo.
_Como eu disse no começo do meu depoimento, o Sr. vai ser vitorioso, mas independente disso, realmente acho que essa minha infidelidade contribuiu ainda mais com a minha pena, sem duvida, foi mais um pecado que eu cometi, e tive que pagar um alto preço, posso por gentileza terminar a história Carlos?
_Você ainda não terminou?
_ Não, mas prometo que falta pouco... Nos anos seguintes tive uma vida muito boa, comecei a namorar com minha esposa na faculdade, depois de 2 anos de namoro nos casamos, e no terceiro ano juntos já estava nascendo nossa querida filha, aproveitávamos cada final de semana como se fosse o ultimo, me lembro de levarmos nosso bebe para o mar, para o zoológico, lembro de cada uma das 12 festas de aniversário que fizemos no primeiro ano, e do planejamento da festa do segundo ano, tudo era perfeito, nunca havia imaginado que um homem como eu pudesse ter uma vida tão perfeita.
_Esse final da história, não espero que acreditem, mas apenas gostaria que todos tentassem olhar com atenção e realmente fizessem um esforço para entender. Tudo estava tão perfeito, que o tédio começava a surgir, todos os dias mesmo com a bebe, eu e minha esposa conseguíamos fazer amor, meu trabalho continuava com 100% de aproveitamento, nossa vida interna era perfeita, mas faltava algo, sempre surgia uma sensação de que ainda faltava algo para estar mais perfeito, aquele velho sentimento de que a grama do vizinho é mais verde, e foi onde acabei me envolvendo com as duas moças, uma durou apenas umas duas semanas, mas a segunda acabou durando mais tempo, ela invejava a vida da minha esposa e fazia o possível para me convencer que era melhor do que ela, mas independente do que ela fazia, nada mudava, eu continuava preferindo minha esposa, e sempre que terminava de transar com Clarisse, batia o velho sentimento de culpa e que não deveria estar naquele local. Após algum tempo havia tomado a decisão e decidi terminar, continuamos conversando, mas não nos encontrávamos mais e não mantínhamos mais nenhuma relação. Os dias passaram e minha filha estava quase completando dois anos, certa tarde estava brincando com ela, quando seu sorriso se transformou, e seu rosto ficou sério, não sei se foi ilusão minha mas tenho certeza que escutei ela dizendo: "Chegou a hora, o sangue é sagrado" e logo em sequencia voltou a ser a pequena e linda garotinha que eu chamava de minha filha, sorri para ela e tentei não demonstrar que estava assustado, mas admito que depois daquele momento fiz um check up completo em todos da família e aumentei a segurança, comecei a ficar paranoico e a evitar sair de casa, esse momento que vos digo, foi apenas 2 meses antes do incidente, pedi licença do trabalho e comecei a ficar muito mais tempo dentro de casa, minha esposa achou ótimo, pois sempre pedia que eu desse mais atenção para minha família.
_Os dias eram calmos e tranquilos, tirando pela convivência com aquela que chamo de minha filha, certo dia encontrei ela brincando com um crucifixo, ela colava ele de ponta cabeça e sorria, mas não era um sorriso de criança e sim um sorriso maléfico, outra vez encontrei um gato morto, ele estava trancado dentro da gaveta da geladeira, primeiro achei que fosse alguma peça da minha esposa, mas logo encontrei pelo de gato e sangue nas roupas de minha filha, as cenas de terror continuavam aumentando, e cada vez que ela entrava no meu quarto no meio da noite pedindo para dormir na nossa cama, era motivo de pânico. Tentei falar com minha esposa que eu acreditava que algo estava errado com nossa filha, mas ela era cega de amor pela criança e duvidava de qualquer problema que ela pudesse ter. Lembro em uma tarde de domingo enquanto assistia ao futebol ela apareceu brincando e tomando chá com um amiguinho, sempre achei normal crianças terem amigos imaginários, eu tive alguns enquanto era pequeno, mas quando ela disse que o nome dele era Bruno, fiquei transtornado, não conseguia dormir, outro dia enquanto estava deitado na banheira lembro de ter visto surgir no boxe entre o vapor e a água escorrendo o nome Sra Cardoso... Sem dúvida eu estava ficando paranoico e louco, não conseguia dormir, e quando dormia tinha diversos pesadelos sempre envolvendo Alex, Bruno e a Sra Cardoso.
_ Na dia do crime eu estava péssimo, já tinha serias dificuldades de exercer as simples atividades do dia-a-dia e minha esposa começava a ficar preocupada comigo, eu evitei minha filha durante o dia todo, mesmo sendo véspera do aniversário dela, de noite quando fomos dormir ela novamente pediu para deitar conosco, minha resposta automática era não, mas minha esposa fez questão de dizer que sim, antes de conseguir pegar no sono, a garota olhou nos meus olhos e disse: "Chegou a hora". depois virou de lado e começou a dormir, fiquei tenso na hora e coloquei na minha cabeça que não iria dormir, algo me dizia que uma tragédia estava próxima, me recordo que tentei ficar acordado a noite toda, e fiz um esforço sobre humano para tal tarefa, mas como uma força maior acabei cochilando, lembro que a ultima vez que olhei no relógio era 3 horas da manhã em ponto, tenho certeza de ter visto esse número, mas logo que dormi, acordei com uma risada maléfica, minha filha estava montada em minha esposa, ela segurava uma faca na mão e pela quantidade de sangue na faca e na cama ela já devia ter enfiado diversas vezes em minha esposa, a cabeça da minha amada estava imóvel, com os olhos abertos me encarando, no mesmo momento tomei a faca da criança e enfiei no peito dela, não saiu um único grito de dor, apenas uma frase: "O sangue está pago", lembro ue olhei novamente no relógio, estava marcando 3:01.
_Espera, espera...Então você quer me dizer que a sua filha foi quem matou a esposa. e que o sr em uma tentativa heroica de salvar ela, matou a sua filha de 2 anos?
_ Não quero dizer nada Carlos, apenas contei minha história, sei que não é fácil de acreditar mas foi exatamente como aconteceu, desde que elas morreram, não tenho mais motivos para viver, escutei diversas pessoas dizendo que eu estava louco, e que no fundo eu não passava de um perturbado, mas no fundo tanto faz, já perdi qualquer motivação pela vida, agradeço que esse depoimento tenha sido filmado. Eu realmente espero que essa história tenha servido como alguma lição para os jovens e até para os adultos dessa audiência, nada que fazemos fica impune, pode demorar, pode ser que não seja tão rápido, mas uma hora a resposta vem, a lei da física sempre funciona, toda ação gera uma reação, o bullying que fazemos, as traições que cometemos, uma hora vão ser pagas, uma hora o acerto de contas vai chegar, tudo que fazemos pode parecer inocente, mas como a teoria do caos diz, o bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo, humilhar uma pessoa, ou obrigar outra a realizar tarefas que consideramos imundas, pode gerar uma consequencia grave em nosso futuro. Eu sei que nenhum de vocês se encontrou com uma Sra Cardoso, e eu realmente espero que nunca se encontrem, mas se algum dia cruzarem com uma bruxa, lembrem-se:
As leis do mundo sempre são cobradas, "O Sangue é Sagrado, para se ter sangue, é necessário sacrificar sangue"
Leonardo levantou abriu novamente o envelope retirou um comprimido branco e jogou dentro da boca...