quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Conto #3 As leis do mundo (R) (I)

"Eu, Leonardo Guimarães, Juro pela minha honra e por Deus, dizer a verdade e somente a verdade"

Em outros tempos, Leonardo teria sentido uma grande vontade de dar risada, vendo um réu jurando em nome de Deus e com uma bíblia na mão, porém isso foi antes dos acontecimentos do ultimo ano, agora tudo estava diferente, todas as suas antigas crenças estavam mudando, e ele não conseguia mais distinguir o real do imaginário, chegou a pensar que estava ficando louco, mas seu raciocínio lógico não permitia acreditar nessa versão, mesmo sabendo que ela seria infinitamente mais simples, que ele poderia apenas dizer que estava louco e passar o resto dos seus dias internado sob o efeito de drogas, mas nunca conseguiu se esconder, desde pequeno Leonardo nunca soube fugir de uma briga ou se esconder atras dos outros, por essa razão se via em um tribunal, jurando perante o Juiz, promotoria, uma série de jurados e testemunhas.

Ele conseguia ver todas as pessoas olhando para ele com extremo desprezo, cada vez que a porta do tribunal abria, era possível escultar ao fundo o som de gritos "MONSTRO, ASSASSINO, FILHO DA PU..." entre diversas outras ofensas das quais não vale a pena citar, o mundo estava contra ele. Mas não foi sempre assim, em um canto obscuro de sua mente, ainda conseguia se lembrar dos dias de glória, dos dias em que fora "Ô" advogado do Brasil, havia vencido 100% dos seus casos, com 5 anos exercendo a profissão já era sócio de uma importante firma de São Paulo, com pouco tempo de trabalho, não se submetia a qualquer caso, era capaz de escolher aqueles que ele considerava justos e que realmente mereciam uma defesa, dessa forma conseguiu o respeito e a gratidão da população Brasileira, chegou a ser cogitado como político durante um tempo, afinal a população precisava de um homem honesto na política, mas rapidamente rejeitou qualquer filiação a partidos políticos, gostava de ter sua independência e tinha amor pela advocacia. 

_Leonardo Guimarães, por favor poderia nos dizer onde o senhor estava na noite do dia 25 de setembro?_ (Perguntas de sempre, tentando provar que eu estava no local do crime, como se todos já não soubessem a verdade)_ Deitado em minha cama ao lado da minha esposa.


_ O Senhor saiu algum momento do seu quarto...


_ Desculpa lhe interromper Sr. Carlos Ignácio, porém, Vossa Excelência, eu poderia fazer um breve depoimento antes de começarem as perguntas? acredito que vamos ganhar tempo.


O Promotor Carlos corou com a interrupção e pensou em pedir protesto, porém o olhar do Juiz dizia mais do que as palavras, sem dúvida ele e todos queriam escultar o que Leonardo tinha a dizer, afinal de contas já faziam 3 meses que ele não pronunciava uma palavra sobre o caso ou o que de fato havia ocorrido. Carlos voltou para o seu lugar, se sentou e aguardou que Leonardo iniciasse seu depoimento.


_ Vossa Excelência, Sr Carlos, conforme conversamos na audiência preliminar, não estou aqui para tomar o tempo de ninguém, vou contar uma história, ou melhor a minha história, devo tomar algum tempo nela, admito, porém depois de explicada, acredito que os jurados vão conseguir ter uma opinião muito clara do que de fato ocorreu e poderemos encurtar em muito esse julgamento, prometo Carlos, que finalizado o meu depoimento, você vai ter o que deseja, eu fora das ruas, já adiantando pode ficar tranquilo, porque independente do que aconteça, você não deve perder esse caso_ A porta abriu e mais uma vez Leonardo conseguiu escultar a multidão gritando palavras "bonitas" para ele_ Muitas coisas que eu vou contar, eu não me orgulho e se eu pudesse voltar no tempo, com certeza não faria novamente, mas espero que tenham um pouco de paciência e tentem compreender, eu era imaturo, e não tinha a mínima noção dos meus atos_ Os olhos dos jurados continuavam com uma expressão de ódio por traz de uma tentativa de manter a imparcialidade, tirando um rapaz que parecia simpatizar com ele, o restante estava achando tudo aquilo uma perda de tempo, pois já tinham definido a pena máxima de 30 anos para ele, mas independente da opinião dos jurados e do público em geral, Leonardo precisava contar a sua história_ Nasci no Rio Grande do Sul, em uma pequena cidade cujo o nome e a importância não vem ao caso, afinal, com 14 anos mudei para Porto Alegre e fui estudar em um colégio de internato, nunca consegui me ver em uma cidade pequena a vida toda, durante os meus anos de internato sofri bullying e fiz muito bullying, jovens garotos morando sozinhos, aprontam diversas brincadeiras com os demais, porém todas eram relativamente leves, algumas devem ter deixado pequenos traumas, mas nada que realmente impactasse a vida de uma pessoa, pelo menos espero que não_ Leonardo sempre teve uma boa oratória e apesar do rancor inicial, conseguia ver os jurados olhando com mais atenção para o seu depoimento_ Porém, uma dessas brincadeiras, foi um pouco mais pesada, quem mora no estado do Rio Grande do Sul, provavelmente já escutou a história de que se você pegar o cogumelo que cresce na bosta da vaca depois do quinto dia que choveu, você pode fazer um chá e ficar relativamente louco, com 16 anos eramos jovens e fazíamos de tudo pelo prazer e pela diversão, um amigo nosso, Bruno era o que mais sofria de brincadeiras, todo grupo de jovens sempre tem aquele esquisito que quer interagir, mas sempre faz os comentários mais infelizes e tem as piores atitudes, todas as "brincadeiras" sempre terminavam acontecendo com ele, por mais que ele tentasse, sempre voltava para ele.


_Protesto Vossa excelência, essa história de criança não vai nos levar a lugar algum



_ Vossa excelência essa história é fundamental para que todos possam compreender a natureza do que ocorreu nesse caso.



_Protesto negado, por favor Leonardo, prossiga, mas seja breve.




Sem dúvida, ser um excelente e respeitado advogado, traz alguns benefícios.



_ Continuando... Certa vez apostamos com ele, que se quisesse fazer parte do nosso grupo, "os heróis do Internato" ele deveria passar por uma iniciação, deveria tomar um chá de cogumelo da vaca, ele prontamente negou, mas depois de colocarmos pressão e confirmarmos que todos haviam tomado para fazer parte do grupo ele aceitou, deixamos a missão de colher os cogumelos para Alex, pois era o mais louco do grupo e dizia saber onde encontrar. Esperamos ansiosamente por um dia que tivesse chuva, e ainda mais ansiosos os 5 dias posteriores, quando Alex chegou com os cogumelos, ninguém se preocupou em perguntar se eram realmente bons para fazer chá, ou se haviam sido colhidos da bosta da vaca, todos estávamos loucos para ver as reações de Bruno após provar o chá, preparamos e oferecemos, novamente ele tentou negar, mas como a mente jovem é fraca, colocamos pressão e convencemos ele a tomar, a sensação foi incrível, apesar de ser um humor negro, não me recordo de ter dado tanta risada na minha vida, como naquela tarde, Bruno tirou toda a roupa e começou a correr pelado, subiu no telhado da republica e gritava palavras em inglês, rolou no chão, tentou mergulhar no lago e continuou por horas nessa loucura. Depois de algum tempo aquilo começou a nos cansar, então deixamos ele no quarto e saímos, porém as horas passaram, os dias passaram, no começo pensamos que fosse uma brincadeira do Bruno, mas logo percebemos que a brincadeira havia se tornado algo sério, Bruno não respondia nada com sentido, tinha alguns breves momentos de lucidez, mas logo voltava a uma loucura total, tentamos fazer ele responder e voltar a ser o nosso amigo, mas nada adiantava, em um desses momentos de lucidez, ele conseguiu informar a mãe dele, o que havia ocorrido. É interessante como a mente humana funciona, ele não se lembrava de praticamente nada, porém o nome de cada um de nós e de como tínhamos duvidado que ele tomaria o chá, continuou claramente na cabeça dele.



_ Leonardo, todos já percebemos como desde pequeno você era uma criança perversa e que curtia alucinógenos, mas isso não vem ao caso desse julgamento.



_Carlos, me desculpe, por favor tenha paciência, estou chegando na parte importante da história, e garanto que tudo vai fazer sentido. Continuando... Diversos doutores tentaram ajudar, padres tentaram benzer, mas nada surgia resultado, durante o tempo que mantive contato com Bruno, que não foi pouco, foram 2 anos, ele continuou louco e com diversos distúrbios, sendo honesto, duvido muito que ele tenha voltado ao normal. Mas essa não foi a parte complexa da história, que envolve esse caso, a pior parte estava relacionado a mãe dele, ela era conhecida por todos por ser uma velha bruxa, todas as mães contavam histórias de terror para amedrontar os filhos com a velha senhora Cardoso, não cresci naquele Bairro em Porto Alegre, e nunca tive medo de histórias de terror, mas já havia escutado diversas histórias sobre a mãe do Bruno e sobre como as crianças mais novas temiam ela. Depois que Bruno contou para a sua mãe, a famosa sra Cardoso sobre como ele havia ficado naquele estado, ela como qualquer mãe ficou irada e foi tirar satisfação com nosso grupo de amigos. Consigo me recordar como se fosse hoje, ela nos encontrando na rua encostados no muro e ameaçando nós 5, todos ficamos com medo, principalmente Alex por ter sido o responsável por pegar os cogumelos, apesar do medo, eu não havia crescido escutando historias de terror sobre ela, e não conseguia ficar quieto, me adiantei e debati com ela, disse que não havíamos obrigado o Bruno a fazer nada, que tudo o que ele fez foi por conta própria. Eu digo em nome de Deus senhores jurados, se eu soubesse onde aquilo iria parar, eu jamais teria desafiado aquela mulher, porém novamente, eu não tinha ideia das consequências. Assim que terminei de falar, os olhos negros da Sra Cardoso brilhavam, o cabelo grisalho mal penteado, parecia ainda mais arrepiado, as roupas escuras e sujas pareciam ainda mais com as roupas de uma bruxa da Disney, a veia do pescoço saltava para fora, e sua velha mão tremia, ficamos em silêncio nos encarando por um longo e interminável tempo, hoje quando tento me lembrar de tudo, parece que ficamos horas naquela situação, ainda me pergunto, se eu tivesse pedido desculpas naquele momento, talvez nada de ruim tivesse acontecido, mas eu não pedi desculpas, meu orgulho era soberano, e continuei encarando a Sra Cardoso, sem dizer mais uma única palavra.


Finalmente, ela voltou a falar, sua voz parecia ainda mais rouca, e sua expressão era capaz de colocar medo até no mais valente dos homens.


"_Seus merdinhas imundos, acham que são alguma coisa? acham que entendem da vida? pegar o meu pequeno e querido filho e dar cogumelos para ele? intoxicar uma criança inocente? eu deveria ter processado vocês e suas famílias, mas isso não seria castigo, isso não seria nada, nunca acreditei nas leis dos homens, sempre preferi as leis do mundo, e nessas leis, meus queridos imundos, eu sei como punir cada um, vocês 3 vão morrer antes de terem os prazeres da vida, antes de atingirem a maior idade, antes de terem um momento de verdadeira felicidade, agora você Alex,(não sei como, mas ela sabia nosso nome) você não.... você foi o culpado, aquele que trouxe os cogumelos, você vai morrer também, mas não de uma forma simples, você vai sofrer, em nome do meu Sr do Inferno, eu quero que você sofra, cada minuto antes de sua morte, quero que sinta tanta dor que vai implorar para ser morto, mas ainda assim não vai ser, você só vai descansar, quando assim como meu filho, você perder a consciência do que é real, e todos a sua volta tiverem te abandonado. Por ultimo, você meu amigo metido, você poderia morrer como os demais, rápido e sem sofrimento, mas pelo seu gosto por desafios, vou lhe deixar viver, mas garanto, você vai pagar por isso, não hoje, nem amanhã, mas no dia que você acreditar estar feliz e que não quiser mudar nada da sua vida, eu vou aparecer e fazer você sofrer como nunca imaginou que fosse possível, lhe garanto verme, os crimes do passado SEMPRE são julgados,



Enquanto a senhora Cardoso pronunciava suas palavras, Leonardo tinha a nítida impressão de estar vendo uma grande sombra negra crescendo ao lado dela, uma sombra confusa, ela parecia ter um chifre saindo da cabeça e uma longa calda, por alguma razão aquilo não parecia humano. Durante os anos que se passaram, ele sempre se perguntou se havia realmente visto aquela sombra ou se era apenas uma imaginação sua, uma distorção dos fatos.


Todo o tribunal estava em silêncio, todos prestavam muita atenção em cada palavra que Leonardo dizia, seus olhos estavam cheios de lágrimas, enquanto ele fazia o possível para se manter firme e continuar sua história.

_ Quando a Sra Cardoso terminou de rogar a praga em nós, ficamos em silêncio durante algum tempo, todos refletindo sobre as palavras e sobre o que havíamos acabado de ver, ainda me pergunto se minha mente não ficou confusa com o passar dos anos, mas hoje sinto que tinha algo sobrenatural naquela mulher, algo que estivesse junto com ela naquele momento_ Leonardo se levantou da cadeira_ Senhores, cada palavra que estou dizendo, é a mais absoluta verdade, por favor fiquem a vontade para pesquisar nomes e afins após o termino do meu depoimento,sei que alguns detalhes vão parecer fantasiosos no decorrer da história, mas garanto, são verídicos. No dia seguinte, tudo parecia normal, tudo estava no seu devido lugar, até chegarmos a sala de aula e descobrirmos que o carro que os nossos 3 amigos estavam havia batido, nenhum deles sobreviveu, diziam que o sistema de freios havia falhado, e que eles entraram embaixo de um caminhão. Hoje me pergunto, se não teria sido melhor morrer naquele carro com eles, mas não tive essa opção. Após a notícia tanto eu quanto Alex não conseguimos deixar de lado o pensamento sobre a Sra Cardoso, lembro que passamos o dia debatendo sobre o que deveríamos fazer, até que no término da tarde, resolvemos ir falar com ela e tentar pedir desculpas. Nessa altura ambos estávamos tremendo de medo, pois nossos melhores amigos já estavam mortos e por teoria Alex começaria a sofrer em breve, quando chegamos na casa da Sra Cardoso, encontramos diversos carros na porta incluindo alguns carros de polícia, ficamos com medo, Alex imediatamente fugiu, correu para sua casa, mas eu decidi ficar e tentar descobrir o que estava ocorrendo dentro da velha casa. Assim que eu pensei em abrir a maçaneta um policial saiu bebendo um copo de café e comendo algo que parecia ser um salgado, lembro que ele tentou me expulsar, mas sempre tive boa dicção e após alguns momentos complicados, já estávamos conversando como amigos, ele era jovem e também havia estudado no internato e assim como eu, também conhecia algumas histórias sobre a Sra Cardoso. Ele comentou que finalmente ela havia se superado:"Uma irmã ligou para a polícia, contando que encontrou a Sra Cardoso morta, quando chegamos para investigar ela estava deitada sobre um tapete negro, com um pequeno altar em sua frente, acima do altar era possível ver um crucifixo virado ao contrário, deve ter se soltado ou coisa parecida, ela estava com um punhal cravado no peito e um bilhete na mão, sem dúvida havia sido suicídio" minha primeira reação foi entrar em desespero, mas tentei manter a calma perante o policial e perguntei o que estava escrito, " era bem curto e não sei ao certo o que queria dizer, mas era algo como: "O Sangue é sagrado, para se ter sangue é necessário sacrificar sangue" 

Leonardo começava a notar uma leve apreensão nas pessoas do julgamento e começava a sentir o medo nos olhos, uma das juradas estava alisando os braços, visivelmente se recuperando de um arrepio, ele aproveitou o momento e voltou a se sentar no banco, tomou um copo de água, enquanto as pessoas olhavam para ele e voltou a contar sua história.

_Depois do incidente Bruno foi morar com a tia e depois de alguns anos eles se mudaram, até onde me lembro ele continuou com problemas mentais, nunca se recuperando. Um ano depois desse caso, Alex adquiriu uma raríssima doença, a Porfiria Cutânea, acredito que muitos aqui jamais tenham escutado falar de tal doença, mas garanto a todos, ela é real, eu trouxe comigo um envelope contendo algumas fotos do Alex depois de algum tempo que adquiriu a doença_ Leonardo abriu com calma um envelope e retirou duas fotos, o rosto do seu amigo não parecia humano, era uma mistura de vampiro com os mortos vivos encontrados em The Walking Dead ou Resident Evil, ele parecia um zumbi, com pelos em diversos lugares do rosto, os dentes apodrecidos a mostra e o sangue dos diversos hematomas saindo pelo seu rosto, todos os jurados olhavam com nojo e espanto aquelas imagens, era nítido que o medo estava estampado no rosto de cada um deles_ Senhores, essa rara doença é uma das piores que eu tive o desprazer de ter visto, guardava essas fotos, por ter medo de olhar, mas juro que nos últimos 10 anos, não olhei uma única vez se quer para elas, pois a imagem ainda hoje me deixa triste e perturbado. Algumas pessoas dizem que essa doença foi a responsável pela criação dos vampiros e lobisomens, uma vez que a pele fica tão sensível que o indivíduo começa a andar somente na escuridão e os hematomas e os pelos crescendo, eles realmente perdem a feição humana para se tornar algo animalesco, esse sofrimento durou muito tempo para Alex, até que ele finalmente morresse, assim como a velha Sra Cardoso havia prometido.


Leonardo bebeu mais um copo de água enquanto se recuperava


_Me desculpem por todo o tempo contando essas histórias, mas era fundamental para chegar onde quero chegar, Depois desse incidente a vida continuou, eu lembro que passei a frequentar a igreja, me confessei para um padre que disse que todos os meus pecados estavam perdoados, durante um bom tempo continuei com medo, mas após tanta felicidade, eu duvidava que algo de ruim pudesse acontecer, comecei realmente a achar que o velho padre havia retirado a minha maldição. Consegui entrar na faculdade que eu desejava, exerci minha profissão da forma que eu queria, me casei com a melhor esposa que eu poderia ter e tive uma linda filha, tudo não poderia estar melhor.


Carlos se levantou e sem esperar falou alto.


_Agora é a hora que você conta para todos sobre a sua amante Clarisse?e de como estava fazendo planos para morar junto com ela, no lugar da sua querida família?

Sem dúvida o tribunal não estava ciente dessa afirmação, todos estavam olhando para ele boquiabertos, no momento que eles começavam a ficar comovidos com a história.

_Sim, Carlos, ela também vai entrar na história, como disse no começo do meu depoimento, nunca fui santo e sempre cometi diversos erros na minha vida, tive essa amante e mais uma, Letícia, mas nunca prometi para nenhuma delas que algum dia iria largar minha família, e nunca cheguei a ter algo sério com elas, apenas utilizava como diversão.


_DIVERSÃO ESSA QUE RESULTOU NA MORTE DA SUA ESPOSA E DA SUA FILHA_ Carlos estava gritando e aproveitando o momento para garantir que todos voltassem a ter o ódio inicial de Leonardo.


_Como eu disse no começo do meu depoimento, o Sr. vai ser vitorioso, mas independente disso, realmente acho que essa minha infidelidade contribuiu ainda mais com a minha pena, sem duvida, foi mais um pecado que eu cometi, e tive que pagar um alto preço, posso por gentileza terminar a história Carlos?


_Você ainda não terminou?



_ Não, mas prometo que falta pouco... Nos anos seguintes tive uma vida muito boa, comecei a namorar com minha esposa na faculdade, depois de 2 anos de namoro nos casamos, e no terceiro ano juntos já estava nascendo nossa querida filha, aproveitávamos cada final de semana como se fosse o ultimo, me lembro de levarmos nosso bebe para o mar, para o zoológico, lembro de cada uma das 12 festas de aniversário que fizemos no primeiro ano, e do planejamento da festa do segundo ano, tudo era perfeito, nunca havia imaginado que um homem como eu pudesse ter uma vida tão perfeita. 



_Esse final da história, não espero que acreditem, mas apenas gostaria que todos tentassem olhar com atenção e realmente fizessem um esforço para entender. Tudo estava tão perfeito, que o tédio começava a surgir, todos os dias mesmo com a bebe, eu e minha esposa conseguíamos fazer amor, meu trabalho continuava com 100% de aproveitamento, nossa vida interna era perfeita, mas faltava algo, sempre surgia uma sensação de que ainda faltava algo para estar mais perfeito, aquele velho sentimento de que a grama do vizinho é mais verde, e foi onde acabei me envolvendo com as duas moças, uma durou apenas umas duas semanas, mas a segunda acabou durando mais tempo, ela invejava a vida da minha esposa e fazia o possível para me convencer que era melhor do que ela, mas independente do que ela fazia, nada mudava, eu continuava preferindo minha esposa, e sempre que terminava de transar com Clarisse, batia o velho sentimento de culpa e que não deveria estar naquele local. Após algum tempo havia tomado a decisão e decidi terminar, continuamos conversando, mas não nos encontrávamos mais e não mantínhamos mais nenhuma relação. Os dias passaram e minha filha estava quase completando dois anos, certa tarde estava brincando com ela, quando seu sorriso se transformou, e seu rosto ficou sério, não sei se foi ilusão minha mas tenho certeza que escutei ela dizendo: "Chegou a hora, o sangue é sagrado" e logo em sequencia voltou a ser a pequena e linda garotinha que eu chamava de minha filha, sorri para ela e tentei não demonstrar que estava assustado, mas admito que depois daquele momento fiz um check up completo em todos da família e aumentei a segurança, comecei a ficar paranoico e a evitar sair de casa, esse momento que vos digo, foi apenas 2 meses antes do incidente, pedi licença do trabalho e comecei a ficar muito mais tempo dentro de casa, minha esposa achou ótimo, pois sempre pedia que eu desse mais atenção para minha família.



_Os dias eram calmos e tranquilos, tirando pela convivência com aquela que chamo de minha filha, certo dia encontrei ela brincando com um crucifixo, ela colava ele de ponta cabeça e sorria, mas não era um sorriso de criança e sim um sorriso maléfico, outra vez encontrei um gato morto, ele estava trancado dentro da gaveta da geladeira, primeiro achei que fosse alguma peça da minha esposa, mas logo encontrei pelo de gato e sangue nas roupas de minha filha, as cenas de terror continuavam aumentando, e cada vez que ela entrava no meu quarto no meio da noite pedindo para dormir na nossa cama, era motivo de pânico. Tentei falar com minha esposa que eu acreditava que algo estava errado com nossa filha, mas ela era cega de amor pela criança e duvidava de qualquer problema que ela pudesse ter. Lembro em uma tarde de domingo enquanto assistia ao futebol ela apareceu brincando e tomando chá com um amiguinho, sempre achei normal crianças terem amigos imaginários, eu tive alguns enquanto era pequeno, mas quando ela disse que o nome dele era Bruno, fiquei transtornado, não conseguia dormir, outro dia enquanto estava deitado na banheira lembro de ter visto surgir no boxe entre o vapor e a água escorrendo o nome Sra Cardoso... Sem dúvida eu estava ficando paranoico e louco, não conseguia dormir, e quando dormia tinha diversos pesadelos sempre envolvendo Alex, Bruno e a Sra Cardoso. 



_ Na dia do crime eu estava péssimo, já tinha serias dificuldades de exercer as simples atividades do dia-a-dia e minha esposa começava a ficar preocupada comigo, eu evitei minha filha durante o dia todo, mesmo sendo véspera do aniversário dela, de noite quando fomos dormir ela novamente pediu para deitar conosco, minha resposta automática era não, mas minha esposa fez questão de dizer que sim, antes de conseguir pegar no sono, a garota olhou nos meus olhos e disse: "Chegou a hora". depois virou de lado e começou a dormir, fiquei tenso na hora e coloquei na minha cabeça que não iria dormir, algo me dizia que uma tragédia estava próxima, me recordo que tentei ficar acordado a noite toda, e fiz um esforço sobre humano para tal tarefa, mas como uma força maior acabei cochilando, lembro que a ultima vez que olhei no relógio era 3 horas da manhã em ponto, tenho certeza de ter visto esse número, mas logo que dormi, acordei com uma risada maléfica, minha filha estava montada em minha esposa, ela segurava uma faca na mão e pela quantidade de sangue na faca e na cama ela já devia ter enfiado diversas vezes em minha esposa, a cabeça da minha amada estava imóvel, com os olhos abertos me encarando, no mesmo momento tomei a faca da criança e enfiei no peito dela, não saiu um único grito de dor, apenas uma frase: "O sangue está pago", lembro ue olhei novamente no relógio, estava marcando 3:01.



_Espera, espera...Então você quer me dizer que a sua filha foi quem matou a esposa. e que o sr em uma tentativa heroica de salvar ela, matou a sua filha de 2 anos?



_ Não quero dizer nada Carlos, apenas contei minha história, sei que não é fácil de acreditar mas foi exatamente como aconteceu, desde que elas morreram, não tenho mais motivos para viver, escutei diversas pessoas dizendo que eu estava louco, e que no fundo eu não passava de um perturbado, mas no fundo tanto faz, já perdi qualquer motivação pela vida, agradeço que esse depoimento tenha sido filmado. Eu realmente espero que essa história tenha servido como alguma lição para os jovens e até para os adultos dessa audiência, nada que fazemos fica impune, pode demorar, pode ser que não seja tão rápido, mas uma hora a resposta vem, a lei da física sempre funciona, toda ação gera uma reação, o bullying que fazemos, as traições que cometemos, uma hora vão ser pagas, uma hora o acerto de contas vai chegar, tudo que fazemos pode parecer inocente, mas como a teoria do caos diz, o bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão do outro lado do mundo, humilhar uma pessoa, ou obrigar outra a realizar tarefas que consideramos imundas, pode gerar uma consequencia grave em nosso futuro. Eu sei que nenhum de vocês se encontrou com uma Sra Cardoso, e eu realmente espero que nunca se encontrem, mas se algum dia cruzarem com uma bruxa, lembrem-se:


As leis do mundo sempre são cobradas, "O Sangue é Sagrado, para se ter sangue, é necessário sacrificar sangue"  


Leonardo levantou abriu novamente o envelope retirou um comprimido branco e jogou dentro da boca...



domingo, 4 de janeiro de 2015

Conto #2 - Os Roedores de Natal (S) (R)

Boa tarde meus amigos, tudo bom?
Depois de uma maravilhosa viagem pelas cidades do Nordeste, hora de retomar os contos.

Espero realmente que gostem e aprovem esse segundo conto, continuo aceitando todos os tipos de feedback e sugestões de melhoria.

Muito Obrigado:
Vivian Khatounian e Wendely, seus sonhos/historias contribuíram MUITO para a realização do conto :)



Quarta-feira, 14 de janeiro de 2015.
O Início
Querido diário.
Hoje finalmente vou começar uma nova vida, ainda não consigo acreditar que é verdade, estou morta de ansiedade e o tempo simplesmente não quer passar.
Não consegui dormir essa noite, verificava cada uma das minhas embalagens uma dezena de vezes e ainda tinha a impressão que estava esquecendo algo, fazia anos que eu não me sentia com essa ansiedade, parece que voltei a ser uma colegial de 15 anos prestes a sair no primeiro encontro, mais de 10 anos sem encontrar com ele, mas parece que foi ontem que estudamos juntos. Felipe sem dúvida se tornou o que todos acreditávamos que ele seria, um empresário rico e bem sucedido. Consigo me lembrar como se fosse ontem, o garoto inteligente e calado no fundo da sala de aula, o melhor aluno da classe e o mais inteligente, sempre tive certeza que ele teria um futuro brilhante.
O avião vai decolar, hora de fechar a mesa e guardar você di....

Já não havia mais tempo para continuar a escrita, a aeromoça estava vindo verificando se as poltronas estavam retas, as mesas fechadas e os cintos presos_ A comissária de bordo estava começando o tradicional procedimento de segurança pré voo_ Larissa tentava não demonstrar a ansiedade que sentia enquanto o avião não decolava, já havia olhado para todos os lados, lido o cartão de embarque três vezes, puxado conversa com o rapaz da poltrona ao lado e por ultimo escrito no seu diário, mas tudo isso não havia adiantado em nada_ a comissária ainda estava explicando como utilizar a máscara de gás. Tentou se acalmar, pois sabia que faltava mais de 3 horas para chegar em Natal e por mais que ela fizesse um esforço mental, não adiantaria em nada, o avião não chegaria mais rápido. Tentava relaxar, mas sem sucesso, estava com o coração muito acelerado. começou a tentar se concentrar e lembrar de quando era pequena e de coisas em comum que tinha com Felipe, nesse momento todo e qualquer assunto iria ajudar, ela já tinha escutado diversas notícias sobre empresários excêntricos, que rapidamente se cansavam de suas novas distrações e depois de um tempo apenas jogavam fora, para começar com um novo hobby, tinha medo de ser apenas mais um desses "hobbys", então precisava ser tudo perfeito, porém, por mais que tivesse esse pequeno medo, no fundo,sabia que com ela seria diferente, Felipe sempre havia sido muito apaixonado, e mesmo agora que já estava beirando os 30 anos, ela ainda se considerava muito atraente e continuava chamando a atenção dos homens quando andava na rua.
Larissa pegou um pequeno espelho de bolso, e viu seu rosto, nenhuma ruga evidente, olhos claros cor de mel, um lindo cabelo castanho, lábios perfeitos e bem desenhados, apenas um nariz pequeno, porém meio torto _ainda sentia um pequeno incomodo, quando se lembrava de como seu antigo amor havia quebrado ele com um soco, evitava lembrar e pensar nele, pois hoje sentia um extremo nojo do seu antigo parceiro. Com 18 anos, havia largado tudo, inclusive o Felipe, para viver o sonho de morar em Brasília com aquele que ela acreditava ser o amor da sua vida, quatro anos depois, voltou para morar com sua mãe, sem ter cursado uma faculdade, com diversos hematomas pelo corpo, um nariz quebrado, e inúmeros casos de infidelidade, ela se sentia um lixo_ Mas hoje era diferente, hoje estava linda e atraente, conseguia enxergar o brilho nos seus olhos_ Depois de passar anos fugindo de homens e apenas tentando recuperar a sua auto estima, recebeu a notícia de que Felipe ainda estava solteiro, era bem sucedido e ainda nutria sentimentos por ela, rapidamente entrou em contato e logo recebeu o convite para largar tudo em São Paulo e ir morar em Natal, tentou se fazer de difícil, mas era impossível, estava sonhando com esse convite já fazia algum tempo.
A viagem parecia interminável, porém depois de exatas 3 horas, finalmente o avião pousou em São Gonçalo do Amarante, cidade vizinha de Natal, o novo aeroporto da cidade era sem dúvida alguma lindo, porém Larissa, sentia dificuldade em observar o aeroporto, uma vez que não conseguia pensar em outra coisa se não em Felipe_ é estranho como nossa mente é linda e ao mesmo tempo perversa, podemos não sentir nada por uma determinada pessoa, mas se começarmos a pensar nela e nos esforçar para ama-la, rapidamente começamos a mudar esse sentimento e chegamos até a acreditar que amamos ela, “O nosso amor a gente inventa...” Cazuza._ Nesse momento, Larissa já estava loucamente apaixonada por Felipe, sua educação, sua honestidade, seu carinho por ela, tudo estava perfeito.
Assim que pegou suas malas, encontrou com ele na saída do desembarque, Felipe já estava de pé, do lado de fora, não segurava uma plaquinha e sim um cartaz de 1 metro por 1 metro escrito: “Welcome Larissa”,apesar de não saber falar inglês, compreendia perfeitamente que welcome era bem vindo em inglês_Largou as malas no chão e correu para um abraço forte, que terminou com um longo e apaixonado beijo_ Ela torcia para que ele estivesse bonito, mas não esperava tanto, o rosto gordinho com espinhas, havia sido deixado de lado, para um rosto duro e forte, com uma barba rente. Os olhos negros que pareciam azeitonas preguiçosas, hoje eram dois olhos de águia, que mediam cada centímetro de seu corpo, com um olhar dominador, sentiu-se praticamente nua.Tinha o mesmo 1.85 de altura de outros tempos, porém parecia mais alto, não tinha mais uma barriga flácida e braços fracos, era um homem forte, com um corpo malhado, mesmo por baixo da roupa era possível ver um braço forte e um peitoral definido, sem dúvida o sonho não poderia ser melhor.
Felipe estava vestindo uma camisa preta Ellos com dois botões abertos, uma calça jeans Diesel e sapatos de couro extremamento bem engraxados, um relógio prata no pulso e algumas pulseiras de couro, sem dúvida havia deixado de ser o pequeno nerd para se tornar um homem sedutor.
O caminho para o apartamento foi uma felicidade total, eles foram na L200 Triton através da via costeira, até o bairro de Ponta Negra, Larissa ainda não conhecia o nordeste, e ficou totalmente maravilhada com a beleza do local, antes de visitar, imaginava algo parecido com o livro Vidas Secas, ou com filmes tristes sobre a história de Lampião, encontrar uma cidade desenvolvida e com as melhores praias da sua vida era uma surpresa total.
O apartamento era um luxo sem limites, ficava na cobertura de um condomínio de prédios e tinha uma belíssima vista para a praia de Ponta negra e o Morro do Careca.

O meio
A vida não poderia ser melhor, apesar de ter um quarto para ela no apartamento, nunca chegou a utilizar, sempre dormia na cama King Size de Felipe, dormiam juntos 5 dias por semana, 2 dias Felipe sempre estava fora viajando a negócios, Larissa não precisava trabalhar, nem se preocupava em limpar ou cozinhar a unica preocupação que ela precisava ter, era dar prazer para Felipe durante a noite e não esquecer de passar bronzeador antes de conhecer a próxima praia. Tudo estava perfeito na vida, e seguiu dessa forma durante 6 meses, mas tudo um dia muda...
Uma noite na qual Felipe deveria estar viajando, ele voltou para casa mais cedo com um rosto sério e um leve cheiro de cerveja, a primeira reação de Larissa, foi imaginar que havia ocorrido algum acidente, porém logo mudou o pensamento, uma vez que sentiu o cheiro de álcool em seu amante. Felipe estava sério e não parecia em nada com o seu marido carinhoso, parecia estar enfrentando um conflito interno do qual seus olhos ao mesmo tempo que estavam distantes, penetravam os olhos de Larissa.
Ela tentou puxar um diálogo, mas não obteve sucesso, ficaram quase 10 minutos se encarando_nessa altura, Larissa já imaginava que Felipe havia utilizado alguma droga_ Finalmente ele voltou a falar, apenas uma palavra.
_Venha.
Larissa hesitou, e pensou em chamar a polícia antes de sair do apartamento, mas a nova devoção ao seu amante, não permitia que ela tomasse essa atitude, após longos e intermináveis segundos, pensando se deveria seguir seu marido, o amor falou mais alto, ela pegou a bolsa e foi atras dele. Desceram o elevador entraram no carro e saíram em total silêncio, pegaram a rota do sol e foram em direção as praias do litoral sul do Rio Grande do Norte.
O interminável silêncio continuava no carro, Larissa conseguia ver as veias no pescoço de Felipe e o suor escorrendo em sua testa, tentou puxar conversa, mas só foi respondida com o silêncio.
Na altura da praia de Cotovelo saíram da rota do sol e começaram a beirar a praia, o medo crescia dentro de Larissa, e essa altura já estava colocando o celular no modo de emergência, quando o carro parou com uma freada brusca e finalmente Felipe volta a falar com ela.
_ Tenho uma surpresa que vai mudar a sua vida, ou melhor, a nossa vida.
_ Felipe, você está me assustando, conta logo por favor.
_ Abre o porta luva, aperta o botão no controle e observa_ Um grande portão automático começou a abrir_ Essa vai ser a sua nova casa durante os próximos tempos.
Todo o medo que Larissa estava sentindo simplesmente deixaram o seu corpo, sendo trocados por uma felicidade esplendida, a casa era linda por fora, tinha uma piscina, um deck de madeira iluminado com Led, uma bela churrasqueira artesanal emendada com um forno a lenha para pizza, uma grande cozinha externa e alguns equipamentos de ginástica de ferro externo, fora a incrível vista para o mar.
O sonho estava de volta...
Ao entrar na casa, tudo era perfeito, móveis de madeira colonial, uma decoração extremamente sofisticada com diversas janelas todas com vidros para o lado de fora, Larissa parecia uma criança feliz, abria porta a porta pulando vendo cada um dos cômodos da mansão e se maravilhando com a beleza, as 6 primeiras portas, alternavam entre salas de leitura, quartos, sauna e biblioteca, a sétima porta, Larissa abriu, porém estava totalmente escura, tentou o interruptor mas sem sucesso, Felipe chegou próximo e pediu para ela entrar, disse que ela encontraria a luz no fundo da sala, Larissa entrou com o sentimento de surpresa, sentia que ali deveria ser o seu quarto, a sua suíte master.
Quando acendeu a luz, não estava equivocada, sem duvidas era um quarto maravilhoso, com uma linda cama e uma jacúzi no meio, tudo perfeitamente decorado, a única surpresa desagradável, foi ver dois ratos gigantes correndo em sua direção, não eram ratos qualquer, o tamanho deles beirava ao tamanho de um cachorro, a primeira reação, foi gritar, porém não teve tempo do som sair de sua boca, assim que abriu ela, um pano encharcado entrou nela e essa foi a ultima lembrança que Larissa teve.

O Final

A sensação era estranha, tudo parecia estar rodando, mas ao mesmo tempo parecia estar tudo no seu devido lugar, Larissa conseguia sentir seu corpo, aos poucos começou a conseguir movimentar o braço e também as pernas, já conseguia sentir seu próprio corpo, o local estava frio, porém suportável, o chão era duro, e pelo pouco tato que ela conseguia ter, parecia ser feito por pisos de 30cms por 30cms, seus braços estavam soltos e as pernas também, nada estava prendendo ela, porém mesmo com o corpo livre Larissa continuava sentada no chão, seus olhos não conseguiam ver nada, passou a mão pelo rosto a procura de alguma venda ou algo que obstruísse sua visão, porém não adiantou em nada, permanecia na total escuridão, após quase 20 minutos nessa angustia, a voz de Felipe chamou por ela. Não conseguia identificar o lado que vinha, apenas conseguia escutar a voz dentro do local onde ela estava.
_Olá meu amor, me desculpa ter que ser dessa forma, mas foi o único jeito que encontrei de te fazer enxergar o mundo, queria ter aproveitado o quarto antes, mas os Ratões do Banhado quiseram te fazer uma visita.
_Fe...Felipe? onde você está, por que não consigo ver nada?
_ Calma meu amor, seus olhos estão no devido lugar, e você logo poderá enxergar... Pensei muito em como fazer isso, mas não consegui chegar em um consenso, então decidi que você deveria escolher_ um breve silêncio dentro do quarto_ Você prefere ver com seus próprios olhos, depois uma explicação, ou você prefere que eu tente explicar, para depois você ver?
O desespero da escuridão já tomava conta de Larissa, a resposta foi automática.
_ Quero ver logo Felipe, o que quer que seja... Quero ver agora.
_Ok meu amor, seu desejo, é uma ordem, por favor se levante... agora caminhe reto... um pouco para esquerda... isso, caminhe reto com os braços para frente... Quando sentir o vidro, pare.... Perfeito.
Uma luz branca acendeu cegando Larissa, durante quase um minuto ela não conseguia abrir o olho, tamanha a claridade, quando finalmente consegui ver, foi a pior imagem de sua vida, havia pelo menos 200 ratos correndo na sua frente, por mais que tentasse, não conseguiu conter o grito e o desespero, saiu correndo para o lado oposto dos ratos, até subir em uma pequena cama do outro lado da sala. Conseguia escutar a voz de Felipe ao fundo, porém não conseguia identificar uma única palavra, só conseguia pensar em todos aqueles ratos, correndo em sua direção. Quando finalmente tomou coragem e abriu os olhos, viu que os ratos continuavam correndo de um lado para o outro, porém estava em outra sala, começou a observar a volta e percebeu que estava em uma espécie de interrogatório, conseguia ver todos os ratos com clareza, porém estava separada deles por um vidro, a sala onde ela se encontrava não era maior que 3x3m, havia apenas uma privada e a cama que ela havia subido, tudo extremamente branco, do outro lado do vidro, conseguia observar infinitos ratos em uma sala um pouco maior, deveria ter 9X3, porém mesmo sendo bem maior, o chão estava totalmente tomado pelos ratos.
Quando finalmente conseguiu se acalmar um pouco, voltou a escutar as palavras de Felipe.
_ O mundo é engraçado não é Larissa, nos consideramos seres superiores, os únicos animais racionais, aqueles que dominam o mundo, porém continuamos sendo os mais ridículos e asquerosos do planeta.
_ Não mais asquerosos que esses ratos, por favor amor, me deixa sair daqui.
_ Quando estiver pronta, você vai sair... Mas continuando... antes de ser rudemente interrompido, nos consideramos os melhores do planeta, mas não conseguimos viver em sociedade, o tempo todo queremos aquilo que não temos e destruímos nossos irmãos de sangue, sem consciência alguma, eu também era assim, exatamente igual a todos, até que um dia encontrei a salvação da minha vida, um rei_ os ratos continuavam a andar de um lado para o outro desesperados_Talvez você nunca tenha ouvido falar nessa criatura, o rei dos ratos, mas é a criatura mais fantástica do mundo, existe uma mutação rara que pode ocorrer com os ratos, os rabos ficam presos entre eles, acabam calcificando um rato ao outro pelo rabo, quando essa mutação ocorre, o nome dado para esse novo animal é Rei dos Ratos, mesmo eles estando presos uns aos outros, eles continuam vivos.
Quando eu encontrei a primeira vez, tive a mesma reação que você, nojo extremo e desgosto por estar olhando uma criatura tão asquerosa, porém depois de alguns minutos olhando e fotografando, comecei a ver a beleza neles, observe_ Os ratos continuavam correndo de um lado para o outro dentro da sala vizinha, e agora Larissa conseguia ver com clareza, 7 ratos presos entre sim através do rabo_ Você já imaginou alguma vez 7 homens presos entre si conseguirem sobreviver? Jamais... Cada um tentaria se salvar ou mataria os outros para tentar se soltar, mas esses ratos não, todos eles se alimentam e convivem entre si, a relação deles é muito mais desenvolvida do que a nossa, nós humanos nos destruímos por nada, eles, desde que tenham alimento, jamais se matam, convivem entre si, de forma pacífica.

Larissa sentia o corpo tremer, tentava se controlar, sentia um enjoo olhando para aquelas criaturas, sentia desespero por estar trancada naquela sala e ao mesmo tempo se beliscava, acreditava que tudo aquilo não passava de um sonho ruim, que leva tempo para acordar, porém que quando levantasse, estaria em seu apartamento com vista para o mar e Felipe servindo torradas com Nutella de café da manhã... infelizmente...os piores sonhos, nunca terminam.

 _Observe eles se alimentando, todos comem, eles não brigam para comer, todos encontram os seus espaços no corpo e se alimentam_ Um corpo de mulher caiu dentro da sala, era loira, deveria ter 1.70 e longos cabelos dourados. No primeiro instante, Larissa gritou em desespero, por ver o corpo cair no chão, e os ratos correrem na direção dele, no segundo instante, a loira gritou, ainda viva, ela gritava enquanto os ratos dilaceravam a carne dela. Dessa vez, Larissa não conteve a ânsia, e vomitou por toda a sala_ Da primeira vez é difícil de ver meu amor, mas logo você vai entender, garanto que vai... Essa imunda era uma mesquinha, só pensava em festas e esnobava os mais fracos, depois de uma noite de bebedeira, presenciei ela jogando uma garrafa de bebida em um mendigo que dormia na sarjeta, estou apenas dando a ela, o  que ela merece.
Durante 3 longos meses, Larissa continuou presa naquela sala, toda semana um novo corpo era jogado para os ratos, uma vez um cafetão, outra prostitutas, outras vezes turistas que estavam bêbados e bagunçando a cidade, cada vez que jogava um corpo Felipe tinha uma explicação(racional ou não), os dias eram cansativos e solitários, a única companhia que Larissa tinha era dos ratos do outro lado do vidro, de noite conversava com Felipe, e recebia uma refeição. No começo tentava não responder o Felipe, não comer a comida, gritar para que alguém viesse socorrer ela, ou qualquer coisa do tipo, porém tudo era inútil, ela continuava presa, depois de um tempo, começou a responder as perguntas e até se familiarizar com os ratos, sua única companhia durante os dias, por mais que odiasse pensar dessa forma, aguardava ansiosamente a chegada dos corpos que seriam mutilados pelos ratos,  começou a sentir prazer em ver eles devorando os pecadores, no começo acreditava ter cerca de 200 ratos na sala, hoje tinha certeza de ter mais de 800, e o número continuava aumentando. Os longos momentos de solidão ajudavam a refletir sobre sua vida, realmente havia conhecido pouquíssimas pessoas boas, praticamente todos que se aproximavam dela, queriam algo em troca, e não tinham nenhum pudor em lhe prejudicar, agora observava os ratos, e realmente, a população aumentava e eles continuavam vivendo em paz, todos conseguiam participar dos banquetes, todos conseguiam viver juntos.

Mais 3 meses se passaram nessa situação, Larissa já estava vibrando tanto quanto Felipe, cada vez que um novo corpo era jogado para os ratos.

_Amor, acho que você já está pronta e eu já estou pronto.

_ Prontos para que meu querido?

_ Para o Gran Finalle, sinto falta de fazer amor contigo, e sinto que meus ratos já estão prontos.

_ Então venha, faça amor comigo, sinto falta de te ter.

_ Sim, já vou... apenas preciso liberar nossos amigos... Já temos mais de 1000 ratos nessa sala, todos extremamente habituados a comerem somente carne humana... é interessante, como uma vez que você acostuma um rato a comer algo, ele pega gosto por aquilo, e começa a correr atras somente daquele alimento_ Uma porta abriu na sala dos ratos e todos começaram a correr naquela direção, deixando a sala totalmente vazia_ Vamos meu amor, temos que dirigir um caminhão até o centro, hora de soltar nossos amiguinhos.

Uma porta abriu na sala e Larissa seguiu por ela, era estranho ver a luz da lua depois de tanto tempo, mas sua maior preocupação não era o luar e sim, dar prazer para Felipe e ver os ratos fazerem aquilo que foram treinados. Entraram na cabine do caminhão, Larissa conseguia ver que era totalmente revestida, sem dúvida, Felipe não queria ser comido vivo.
Dirigiram até o centro da cidade em um total silencio, Larissa tentava se controlar, mas sentia mais tesão do que havia sentido em toda a sua vida, quando chegaram ao lado do Estádio Arena das Dunas, era possível escutar um alto som, deveria estar ocorrendo um show ou algo parecido, pois as ruas estavam lotadas de pessoas, e a parte interior do estádio iluminada, estacionaram o caminhão em um local com uma boa visão para a belíssima construção e Felipe abriu as portas para os ratos saírem.


A noite foi longa e maravilhosa, nada poderia ter sido mais perfeito, Fizeram amor, como nunca haviam feito, sentiram um prazer mútuo enquanto se entregavam de corpo e alma, um para o outro e escutavam o som do estádio ser substituído pelos gritos de dor e pânico dos pecadores, enquanto os ratos se banqueteavam, foi a melhor noite de amor da vida deles...

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Conto #1 - O Velório Perdido (R)

13 de dezembro 2013, Sexta-feira.


Renato apreciava as ultimas palavras de um longo relatório de ética da empresa, as letras já pareciam pequenas agulhas furando seus olhos, estava trabalhando no escritório desde 07:30 da manhã, porém não podia se dar ao luxo de parar agora, sabia que sua vida estava em constante transformação havia acabado de ganhar o caso Martins, e agora com apenas 25 anos, já estava em um cargo onde muitas pessoas passavam a vida almejando chegar.

Enquanto tentava finalizar as ultimas palavras do relatório, olhou pela janela do CENESP (Centro empresarial de São Paulo) e teve uma visão pouco animadora, só para variar, a Marginal Pinheiros estava totalmente parada, sexta-feira, final de ano, com uma pequena chuva, era impossível o transito estar diferente. Tentando não pensar nos carros que estavam do lado de fora, observou uma pequena gota de água que escorria na janela, de forma irregular ela tocava outra gota e mais outra, acelerava, depois diminuía a velocidade, mas continuava descendo até tocar o final da janela, por alguns instantes sentiu uma pequena inveja daquela gota, livre, sendo levada conforme o vento e a gravidade para onde quer que fosse, sem preocupações ou deveres, apenas seguindo o fluxo, mas esse breve pensamento, logo foi esquecido, pois já passava das 21:00 e ele tinha que estar no carro em menos de 20 minutos. Terminou o relatório de ética, guardou seus documentos e foi em direção ao estacionamento.

Renato era negro, havia crescido em uma família humilde na periferia de São Paulo, apesar do preconceito vivido em algumas etapas de sua vida, nunca havia deixado isso abalar seus planos, quando pequeno decidiu que seria advogado e que um dia seria rico para poder ajudar sua família, colocou essas metas como plano futuro, e fez o possível para alcançá-las, nunca teve dinheiro para estudar em escolas particulares, mas sempre estudou por conta própria, conseguiu destaque por onde passou e principalmente no vestibular, onde passou entre os 10 primeiros na faculdade de direito do largo São Francisco. Na universidade ficou conhecido por ser um aluno exemplar e ao mesmo tempo participar de diversas atividades, incluindo esportes e empresa júnior, ainda na universidade conheceu uma veterana, na qual se apaixonou a primeira vista, Melissa era mais velha que Renato, morena de olhos verdes, linda e gentil, por onde ela passava, sempre havia chamado a atenção, devido ao seu sorriso e principalmente elegância, apesar que nos últimos tempos os sorrisos estavam menos frequentes e a elegância cada vez menor.

Relacionamento entre um casal é algo complexo, quando começa, o mundo é uma maravilha, e tudo que está ao redor parece ser azul, cada um descobrindo as peculiaridades do outro, aprendendo curiosidades e interagindo o tempo todo, ser chamado para um evento ao lado da pessoa é algo mágico, sinal que ela está interessada em você e que quer levar adiante... e o sexo, há o sexo, começo de relacionamento o sexo é algo extraordinário e ocorre com uma frequência assustadora, cada cantinho escuro que encontramos é um local para fazer uma rapidinha, todas as ideias novas são bem vindas e tudo que acontece gera ainda mais prazer. Porém caro leitor, se você ainda não percebeu, aqui vai uma dica, são poucos os relacionamentos que conseguem manter esses pontos como positivos durante muito tempo, logo o relacionamento esfria, e cada vez mais a relação de amor começa a se limitar no papai e mamãe, até chegar o momento que para de vez. Porém, um ponto positivo, casais que sobrevivem esse momento, em geral conseguem voltar a encontrar prazer nas coisas pequenas e até ter uma vida feliz. O relacionamento de Renato e Melissa estava entrando nesse momento tenso, tudo incomodava ao outro, o apoio mutuo que existia no começo em relação a carreira, começava a ficar complicado e cada vez mais um ficava estressado com o outro. Para recuperar essa relação, decidiram que deveriam fazer uma viagem para relaxar, tudo já estava marcado, iriam para o interior de São Paulo, passar um final de semana em uma pequena e aconchegante pousada em Brotas, tudo estava perfeito, até que a infeliz notícia chegou.

_Amor... tudo bom? como estão as coisas no escritório?
_Bom dia Melissa, tudo certo, corrido como sempre, você sabe que no escritório não gosto muito de falar no telefone sobre assuntos pessoais.
_ Meu Dinho Morreu!!! será que você não pode falar comigo mesmo assim?
(Eu deveria ter reparado, a voz dela estava triste e diferente, eu não devia ter cortado dessa forma)
_Desculpa amor, não sabia, mas quem foi que morreu? seu Dinho?
_ Sim meu Emanuel, meu padrinho.
(Quantos parentes, cada dia surge um novo)
_ Meus pêsames amor, você está bem? eu não conhecia ele, ou conhecia?(óbvio que não está bem, o padrinho dela acabou de falecer e você faz uma pergunta dessas)
_Não estou nada bem, preciso de uma abraço, preciso descansar... Estou com minha mãe agora, vamos almoçar juntas depois ela vai preparar tudo para o velório, enquanto eu compro algumas flores.
_Quando vai ser o velório, precisa de alguma ajuda?
_Hoje de noite, não tudo bem.
(Tudo o que eu precisava, trocar nossa viagem, por um velório)
_Vou contigo, para o velório.
_ Obrigado Amor, você é o melhor namorado do mundo.

Depois da conversa, ficou difícil se concentrar no trabalho, e foi ficando cada vez pior, durante o dia recebeu um whats app da Melissa dizendo que o velório seria depois de Itapecerica da Serra, em uma pequena cidade, piorou mais ainda quando descobriu que iria durar toda a noite, e que eles iriam na frente para preparar o local junto com o coveiro e o agente funerário, pois sua mãe estava cuidando do caixão e preparando o corpo.

Por mais que tentasse, Renato não conseguia dizer não para as pessoas, estava cansado, beirando a exaustão, porém, não poderia deixar sua amada sem apoio nesse momento, então combinou que iriam juntos para o velório, assim que ela chegasse no CENESP.

Quando Renato chegou no carro, o que ele viu não foi sua amada namorada, e sim uma pessoa destruída, sem dúvida, Melissa gostava muito seu padrinho, ela estava com os olhos fundos, o cabelo mal arrumado e um vestido preto, sua feição estava triste e apagada, quando viu Renato, correu e deu um longo abraço, o choro recomeçou, quando estava no braço do namorado, Melissa não conseguiu conter as lágrimas e começou a desaguar.

_Tudo bem amor, estou aqui contigo, vai dar tudo certo.

_Obrigado meu anjo_engoliu o choro_ Você é sensacional comigo.

Entraram no carro ligaram o GPS e foram para a cidade do velório.

O caminho foi longo e cansativo, normalmente levariam uma hora, porém com o trânsito de sexta-feira, tudo parecia infinitamente mais distante, já estavam a duas horas no carro e ainda não haviam chegado. Durante o trajeto tiveram diversas conversas sobre a relação do padrinho com Melissa, e de como ele era uma pessoa fantástica, por mais que estivesse em chamas por dentro, Renato fazia o possível para não se estressar, ou transparecer a raiva que estava sentido.

A entrada da cidade era simples, casas humildes e sem muita pompa, sem dúvida era um local de pessoas humildes, quando entraram o GPS ficou preto, mostrando apenas a seta de direção, sem mostrar as ruas, definitivamente, estavam em uma cidade pequena. A cidade estava praticamente deserta, apenas um pequeno bar estava aberto, pararam o carro na frente e perguntaram para os dois homens que estavam sentados na porta, onde ficava o cemitério.

Os homens não eram o que podemos chamar de pessoas simpáticas, um tinha um barba branca longa e mal cuidada, com uma pele vermelha devido ao consumo exagerado de álcool, o outro era baixo, careca com um olhar sério, utilizava um pequeno cachimbo e tinha uma tatuagem em formato de ancora no braço esquerdo.

Ao observar os homens de perto, Melissa automaticamente segurou o braço de Renato assustada, o que gerou um olhar de contrariedade nos homens.
_Boa noite, tudo bom? Por favor os senhores sabem onde fica o cemitério da cidade.
_Anhaa... Segue direto, vira na terceira rua pra lá e segue reto, você vai, vai, vai, quando chegar no motel Ocê que sabe, você vira e continua, depois de um tempo você vai ver o cemitério.
- Deixa eu confirmar, eu sigo por essa rua, na terceira rua viro a direita, depois continuo reto até o motel Sexiabe e viro para qual lado mesmo?
_Anhaa... Esquerda.
_Perfeito Muito obrigado.

Fecharam os vidros e seguiram adiante, com Melissa falando como aqueles homens eram mal encarados e que estava desconfiada da sugestão que os homens passaram.

O caminho estava correto, depois da terceira rua viraram  direita, depois de um longo caminho encontraram o motel, quando viraram a rua, havia um garoto sentado em frente a uma casa, com uma bola de futebol na mão.

_ Olha ali amor, pergunta para o garoto se o caminho realmente é esse.

_ Você ainda não acredita neles? tudo o que eles indicaram está perfeito.

_ Só por desencargo...

_ Boa noite meu amigo, por favor você sabe onde fica o cemitério?

_ Moço, por que o senhor quer ir no cemitério?

_ Precisamos preparar um velório, você sabe se é por aqui?

_ Ninguém deveria ir no cemitério.

_ Mas nós precisamos, por favor é por aqui?

_ Calma amor, não precisa ser malvado com o garoto, ele está certo, ninguém deveria ir para o cemitério. Por favor meu amiguinho como fazemos para chegar lá?

_ Volta por onde vieram e entra na primeira rua a esquerda.

_ Os homens do bar disseram que deveríamos entrar nessa rua e seguir reto.

_ Eles mentem, não siga eles, não siga reto, você não vai achar nada.

_ Ok, então eles mentiram o caminho e o correto é voltar e seguir o que você falou?

_ Sim, senhor,

_ Obrigado.

Renato fechou o vidro e continuou seguindo reto, até ser interrompido por um grito de Melissa.
_Você é surdo??? qual é o seu problema??? não escutou o que o garoto falou?

_ Escutei... mas...

_ Pelo amor de deus, se você escutou ele, a primeira coisa que deve fazer é retornar e não seguir em frente.

_ Ele disse que não deveríamos ir para o cemitério, por isso indicou o caminho errado.

_ Claro que não, ele estava preocupado conosco e não queria que fossemos naquela direção, com certeza tem algo que não queremos encontrar por lá.

_ Melissa, o caminho é esse, você não quer seguir a recomendação de uma criança quer?

Seguiram o caminho que a criança indicou. Voltaram o carro para a outra rua, quando estavam a apenas 300 metros antes do início do muro do cemitério.

Entraram na rua que o garoto indicou, ainda sob uma forte discussão, até que depois de 5 minutos dirigindo, encontraram um muro de cemitério.

(agora que ela vai ficar insuportável)

_Eu não disse que deveríamos seguir o garoto? eu não disse? sem dúvidas chegamos.

_Você está certa, o garoto esta correto, vamos procurar o velório e a funerária, esse cemitério parece cenário de filme de terror.

O cemitério era velho, pequeno, menos de um quarterão, e com altos muros brancos, a pintura começava a ficar desbotada e em alguns pedaços era possível ver o reboco por causa da pintura velha, a entrada do cemitério era um grande e pesado portão de ferro fechado. em frente ao cemitério havia uma construção antiga, por alguma razão Renato lembrou dos antigos colégios onde havia estudado, era uma grande casa, com janelas retangulares simétricas, pintura branca e telhas de brasilit, por alguma razão sentiu um leve arrepio no corpo ao olhar para a construção.

Renato encostou o carro ao lado do cemitério e junto com Melissa começaram a andar em volta do terreno procurando pelo coveiro, pois haviam marcado naquele local, não tinha uma única alma viva por perto, deram a volta no quarterão, e a sensação de estar no local errado, começava a aumentar, a noite era escura e a garoa fina continuava caindo, observaram ao redor e tudo estava deserto, ao longe conseguiam escutar o barulho do piar de uma coruja, e o assovio de um grilo, uma sensação de medo começava a aumentar em Renato, mas como todo homem, evitou transparecer para Melissa, que nessa altura, já estava agarrada em seus braços.

Quando finalmente terminaram a volta, perceberam um pequeno corcunda vindo em direção ao carro, nessa hora o medo de Renato já estava saindo para fora do corpo.

_ Boa noite, Senhor. Você sabe onde encontro o coveiro?

_ Boa... Está falando com ele.

_ Há ,desculpa, o senhor é o coveiro, muito prazer, Renato.

_ Prazer Melissa, estávamos te procurando, minha mãe te ligou hoje de tarde, somos os responsáveis por organizar o enterro e o velório de hoje.

_Hã, claro, você está certa, o velório de hoje, do sr...

_ Emanuel, meu padrinho.

_ Sim, ele mesmo, o Sr. Emanuel_ Renato começou a se sentir desconfiado, por alguma razão o corcunda não parecia saber o que estava acontecendo_Vocês precisam ir falar com o agente funerário, vocês podem encontrar ele ali do outro lado daquela construção.

(O prédio que parecia um colégio, e lá vamos nós...)

_ Do outro lado fica o velório?

_Exatamente, todo o prédio é um antigo colégio, todas as salas são utilizadas para velar os corpos, em geral, não são muito ocupadas, mas essas salas fazem parte do velório.

(Perfeito, sem dúvidas, era um colégio, lá vamos nós, colégio e velório, os piores pesadelos das crianças, agora entendo porque o garoto não queria ir para o cemitério)

Deram a volta no colégio e encontraram a entrada para o velório, ainda era possível ver o portão antigo de um colégio, só que agora com vidros na entrada e com diversas flores.

A porta estava aberta, quando entraram a sala estava deserta, começaram a andar em direção ao homem, escutaram uma voz ao fundo.

_ Ninguém deveria ir ao cemitério... Vocês não deveriam ir ao cemitério...

Renato só teve tempo de sentir uma pancada na cabeça enquanto sua visão ficava totalmente escura.

Sua cabeça estava doendo, tudo parecia confuso, sentiu uma dificuldade imensa para conseguir abrir os olhos, quando finalmente despregou suas pupilas, estava em uma sala escura, e úmida, olhou para o lado e percebeu que melissa estava amarrada ao seu lado.

Quando olhou para frente, viu um pequeno garoto surgindo na luz.

_ Eu avisei.... Meus pais me abandonaram, para ir ao cemitério... o colégio me abandonou para ir ao cemitério todos que conheço me deixam para ir ao cemitério e não voltam mais... AGORA É A VEZ DE VOCÊS NÃO VOLTAREM MAIS.

Apesar do pânico, a ultima coisa que Renato se lembrou foi de uma notícia que havia lido em um jornal há muitos anos...

Irmãos matam todos as pessoas em colégio.

Depois de sofrerem bullying por anos dois irmão se revoltaram com as crianças da cidade e resolveram tomar uma atitude extrema, devido a uma deformidade(corcunda) o irmão mais velho sofria piadas de todos do colégio, apesar de não ter a deformidade o irmão mais novo também sofria piadas por ser irmão de um corcunda.
Juntos eles fecharam os portões do colégio e queimaram todos que estavam dentro, mais de 40 crianças e 7 funcionários foram mortos por essa cruel ação dos garotos perturbados, o irmão corcunda cometeu suicídio na saída do colégio, em frente ao cemitério, já o mais novo, ainda mais cruel, foi até sua casa na beira da estrada e matou seus pais, antes de também cometer suicídio.

Essa sem dúvida foi uma das maiores tragédias que já tivemos no Brasil.



    






Introdução ao Blog

Olá caro leitor, seja bem vindo ao Blog.

Como o nome já diz, esse blog foi a forma que encontrei de colocar no papel, as histórias loucas que passam pela minha cabeça, os sonhos confusos e principalmente as experiências passadas(claro, colocando um pouco mais de drama).

Para aqueles que não me conhecem, meu nome é Vinícius Bianchi Prado, 23 anos, graduado em Ciências Contábeis pela Universidade de São Paulo. Atualmente estou trabalhando com vendas na P&G, (sim, todo vendedor adora contar histórias, e diga-se de passagem, quanto mais fantasiosa for, melhor).

Criei o Hábito de contar histórias ainda jovem, adorava as rodas de amigos, onde sempre surgiam contos bizarros, dos mais variados estilos. Por mais que eu gostasse de escutar todos os temas, sempre tive um fascínio por histórias de terror, a sensação de ter medo de algo que você sabe que é ficção e que foi inventado por algum colega, justamente para te amedrontar, é impagável. Quem nunca saiu de um cinema, ou terminou de ler um livro com aquele pensamento: _Sou a pessoa mais estúpida do mundo, por que infernos eu resolvi assistir esse filme? vou perder um mês de sono lembrando daquelas cenas) e por mais que você se sinta péssimo por ter assistido e prometa nunca mais voltar, assim que o próximo filme é lançado, lá está você novamente na fila do cinema, desesperado para ter medo de novo.
Acredito que a sensação de adrenalina que o medo nos causa, seja o real motivo por esse nosso interesse, ou apenas a curiosidade de saber o que está na escuridão. 

Esse Blog dedico a todos que já escutaram alguma história minha (seja de terror ou não) e principalmente para meus primos, que já passaram por alguma sessão de histórias, que já perderam o sono, já choraram, já ficaram doentes, ou simplesmente gostavam de escutar cada detalhe dessas histórias.


OBS. Essa é a primeira vez que realmente passo histórias para o papel, já tentei escrever livros, mas sempre sem sucesso, principalmente por causa da dificuldade de colocar os pensamentos em uma folha de papel, e eles continuarem interessantes, estou aberto a qualquer feedback, seja ele construtivo ou fodeback, ambos serão bem vindos.

OBS.2. Como disse na introdução, cada conto surgiu de algum lugar, vou colocar uma breve legenda, abaixo, se algum dia tiver curiosidade em saber a história real ou algum detalhe da origem do conto, fique a vontade para perguntar :)

(R) Realidade adaptada
(S) Sonho
(I) Imaginação
(L) Lendas urbanas
(H) Histórias que me contaram.