terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Conto #1 - O Velório Perdido (R)

13 de dezembro 2013, Sexta-feira.


Renato apreciava as ultimas palavras de um longo relatório de ética da empresa, as letras já pareciam pequenas agulhas furando seus olhos, estava trabalhando no escritório desde 07:30 da manhã, porém não podia se dar ao luxo de parar agora, sabia que sua vida estava em constante transformação havia acabado de ganhar o caso Martins, e agora com apenas 25 anos, já estava em um cargo onde muitas pessoas passavam a vida almejando chegar.

Enquanto tentava finalizar as ultimas palavras do relatório, olhou pela janela do CENESP (Centro empresarial de São Paulo) e teve uma visão pouco animadora, só para variar, a Marginal Pinheiros estava totalmente parada, sexta-feira, final de ano, com uma pequena chuva, era impossível o transito estar diferente. Tentando não pensar nos carros que estavam do lado de fora, observou uma pequena gota de água que escorria na janela, de forma irregular ela tocava outra gota e mais outra, acelerava, depois diminuía a velocidade, mas continuava descendo até tocar o final da janela, por alguns instantes sentiu uma pequena inveja daquela gota, livre, sendo levada conforme o vento e a gravidade para onde quer que fosse, sem preocupações ou deveres, apenas seguindo o fluxo, mas esse breve pensamento, logo foi esquecido, pois já passava das 21:00 e ele tinha que estar no carro em menos de 20 minutos. Terminou o relatório de ética, guardou seus documentos e foi em direção ao estacionamento.

Renato era negro, havia crescido em uma família humilde na periferia de São Paulo, apesar do preconceito vivido em algumas etapas de sua vida, nunca havia deixado isso abalar seus planos, quando pequeno decidiu que seria advogado e que um dia seria rico para poder ajudar sua família, colocou essas metas como plano futuro, e fez o possível para alcançá-las, nunca teve dinheiro para estudar em escolas particulares, mas sempre estudou por conta própria, conseguiu destaque por onde passou e principalmente no vestibular, onde passou entre os 10 primeiros na faculdade de direito do largo São Francisco. Na universidade ficou conhecido por ser um aluno exemplar e ao mesmo tempo participar de diversas atividades, incluindo esportes e empresa júnior, ainda na universidade conheceu uma veterana, na qual se apaixonou a primeira vista, Melissa era mais velha que Renato, morena de olhos verdes, linda e gentil, por onde ela passava, sempre havia chamado a atenção, devido ao seu sorriso e principalmente elegância, apesar que nos últimos tempos os sorrisos estavam menos frequentes e a elegância cada vez menor.

Relacionamento entre um casal é algo complexo, quando começa, o mundo é uma maravilha, e tudo que está ao redor parece ser azul, cada um descobrindo as peculiaridades do outro, aprendendo curiosidades e interagindo o tempo todo, ser chamado para um evento ao lado da pessoa é algo mágico, sinal que ela está interessada em você e que quer levar adiante... e o sexo, há o sexo, começo de relacionamento o sexo é algo extraordinário e ocorre com uma frequência assustadora, cada cantinho escuro que encontramos é um local para fazer uma rapidinha, todas as ideias novas são bem vindas e tudo que acontece gera ainda mais prazer. Porém caro leitor, se você ainda não percebeu, aqui vai uma dica, são poucos os relacionamentos que conseguem manter esses pontos como positivos durante muito tempo, logo o relacionamento esfria, e cada vez mais a relação de amor começa a se limitar no papai e mamãe, até chegar o momento que para de vez. Porém, um ponto positivo, casais que sobrevivem esse momento, em geral conseguem voltar a encontrar prazer nas coisas pequenas e até ter uma vida feliz. O relacionamento de Renato e Melissa estava entrando nesse momento tenso, tudo incomodava ao outro, o apoio mutuo que existia no começo em relação a carreira, começava a ficar complicado e cada vez mais um ficava estressado com o outro. Para recuperar essa relação, decidiram que deveriam fazer uma viagem para relaxar, tudo já estava marcado, iriam para o interior de São Paulo, passar um final de semana em uma pequena e aconchegante pousada em Brotas, tudo estava perfeito, até que a infeliz notícia chegou.

_Amor... tudo bom? como estão as coisas no escritório?
_Bom dia Melissa, tudo certo, corrido como sempre, você sabe que no escritório não gosto muito de falar no telefone sobre assuntos pessoais.
_ Meu Dinho Morreu!!! será que você não pode falar comigo mesmo assim?
(Eu deveria ter reparado, a voz dela estava triste e diferente, eu não devia ter cortado dessa forma)
_Desculpa amor, não sabia, mas quem foi que morreu? seu Dinho?
_ Sim meu Emanuel, meu padrinho.
(Quantos parentes, cada dia surge um novo)
_ Meus pêsames amor, você está bem? eu não conhecia ele, ou conhecia?(óbvio que não está bem, o padrinho dela acabou de falecer e você faz uma pergunta dessas)
_Não estou nada bem, preciso de uma abraço, preciso descansar... Estou com minha mãe agora, vamos almoçar juntas depois ela vai preparar tudo para o velório, enquanto eu compro algumas flores.
_Quando vai ser o velório, precisa de alguma ajuda?
_Hoje de noite, não tudo bem.
(Tudo o que eu precisava, trocar nossa viagem, por um velório)
_Vou contigo, para o velório.
_ Obrigado Amor, você é o melhor namorado do mundo.

Depois da conversa, ficou difícil se concentrar no trabalho, e foi ficando cada vez pior, durante o dia recebeu um whats app da Melissa dizendo que o velório seria depois de Itapecerica da Serra, em uma pequena cidade, piorou mais ainda quando descobriu que iria durar toda a noite, e que eles iriam na frente para preparar o local junto com o coveiro e o agente funerário, pois sua mãe estava cuidando do caixão e preparando o corpo.

Por mais que tentasse, Renato não conseguia dizer não para as pessoas, estava cansado, beirando a exaustão, porém, não poderia deixar sua amada sem apoio nesse momento, então combinou que iriam juntos para o velório, assim que ela chegasse no CENESP.

Quando Renato chegou no carro, o que ele viu não foi sua amada namorada, e sim uma pessoa destruída, sem dúvida, Melissa gostava muito seu padrinho, ela estava com os olhos fundos, o cabelo mal arrumado e um vestido preto, sua feição estava triste e apagada, quando viu Renato, correu e deu um longo abraço, o choro recomeçou, quando estava no braço do namorado, Melissa não conseguiu conter as lágrimas e começou a desaguar.

_Tudo bem amor, estou aqui contigo, vai dar tudo certo.

_Obrigado meu anjo_engoliu o choro_ Você é sensacional comigo.

Entraram no carro ligaram o GPS e foram para a cidade do velório.

O caminho foi longo e cansativo, normalmente levariam uma hora, porém com o trânsito de sexta-feira, tudo parecia infinitamente mais distante, já estavam a duas horas no carro e ainda não haviam chegado. Durante o trajeto tiveram diversas conversas sobre a relação do padrinho com Melissa, e de como ele era uma pessoa fantástica, por mais que estivesse em chamas por dentro, Renato fazia o possível para não se estressar, ou transparecer a raiva que estava sentido.

A entrada da cidade era simples, casas humildes e sem muita pompa, sem dúvida era um local de pessoas humildes, quando entraram o GPS ficou preto, mostrando apenas a seta de direção, sem mostrar as ruas, definitivamente, estavam em uma cidade pequena. A cidade estava praticamente deserta, apenas um pequeno bar estava aberto, pararam o carro na frente e perguntaram para os dois homens que estavam sentados na porta, onde ficava o cemitério.

Os homens não eram o que podemos chamar de pessoas simpáticas, um tinha um barba branca longa e mal cuidada, com uma pele vermelha devido ao consumo exagerado de álcool, o outro era baixo, careca com um olhar sério, utilizava um pequeno cachimbo e tinha uma tatuagem em formato de ancora no braço esquerdo.

Ao observar os homens de perto, Melissa automaticamente segurou o braço de Renato assustada, o que gerou um olhar de contrariedade nos homens.
_Boa noite, tudo bom? Por favor os senhores sabem onde fica o cemitério da cidade.
_Anhaa... Segue direto, vira na terceira rua pra lá e segue reto, você vai, vai, vai, quando chegar no motel Ocê que sabe, você vira e continua, depois de um tempo você vai ver o cemitério.
- Deixa eu confirmar, eu sigo por essa rua, na terceira rua viro a direita, depois continuo reto até o motel Sexiabe e viro para qual lado mesmo?
_Anhaa... Esquerda.
_Perfeito Muito obrigado.

Fecharam os vidros e seguiram adiante, com Melissa falando como aqueles homens eram mal encarados e que estava desconfiada da sugestão que os homens passaram.

O caminho estava correto, depois da terceira rua viraram  direita, depois de um longo caminho encontraram o motel, quando viraram a rua, havia um garoto sentado em frente a uma casa, com uma bola de futebol na mão.

_ Olha ali amor, pergunta para o garoto se o caminho realmente é esse.

_ Você ainda não acredita neles? tudo o que eles indicaram está perfeito.

_ Só por desencargo...

_ Boa noite meu amigo, por favor você sabe onde fica o cemitério?

_ Moço, por que o senhor quer ir no cemitério?

_ Precisamos preparar um velório, você sabe se é por aqui?

_ Ninguém deveria ir no cemitério.

_ Mas nós precisamos, por favor é por aqui?

_ Calma amor, não precisa ser malvado com o garoto, ele está certo, ninguém deveria ir para o cemitério. Por favor meu amiguinho como fazemos para chegar lá?

_ Volta por onde vieram e entra na primeira rua a esquerda.

_ Os homens do bar disseram que deveríamos entrar nessa rua e seguir reto.

_ Eles mentem, não siga eles, não siga reto, você não vai achar nada.

_ Ok, então eles mentiram o caminho e o correto é voltar e seguir o que você falou?

_ Sim, senhor,

_ Obrigado.

Renato fechou o vidro e continuou seguindo reto, até ser interrompido por um grito de Melissa.
_Você é surdo??? qual é o seu problema??? não escutou o que o garoto falou?

_ Escutei... mas...

_ Pelo amor de deus, se você escutou ele, a primeira coisa que deve fazer é retornar e não seguir em frente.

_ Ele disse que não deveríamos ir para o cemitério, por isso indicou o caminho errado.

_ Claro que não, ele estava preocupado conosco e não queria que fossemos naquela direção, com certeza tem algo que não queremos encontrar por lá.

_ Melissa, o caminho é esse, você não quer seguir a recomendação de uma criança quer?

Seguiram o caminho que a criança indicou. Voltaram o carro para a outra rua, quando estavam a apenas 300 metros antes do início do muro do cemitério.

Entraram na rua que o garoto indicou, ainda sob uma forte discussão, até que depois de 5 minutos dirigindo, encontraram um muro de cemitério.

(agora que ela vai ficar insuportável)

_Eu não disse que deveríamos seguir o garoto? eu não disse? sem dúvidas chegamos.

_Você está certa, o garoto esta correto, vamos procurar o velório e a funerária, esse cemitério parece cenário de filme de terror.

O cemitério era velho, pequeno, menos de um quarterão, e com altos muros brancos, a pintura começava a ficar desbotada e em alguns pedaços era possível ver o reboco por causa da pintura velha, a entrada do cemitério era um grande e pesado portão de ferro fechado. em frente ao cemitério havia uma construção antiga, por alguma razão Renato lembrou dos antigos colégios onde havia estudado, era uma grande casa, com janelas retangulares simétricas, pintura branca e telhas de brasilit, por alguma razão sentiu um leve arrepio no corpo ao olhar para a construção.

Renato encostou o carro ao lado do cemitério e junto com Melissa começaram a andar em volta do terreno procurando pelo coveiro, pois haviam marcado naquele local, não tinha uma única alma viva por perto, deram a volta no quarterão, e a sensação de estar no local errado, começava a aumentar, a noite era escura e a garoa fina continuava caindo, observaram ao redor e tudo estava deserto, ao longe conseguiam escutar o barulho do piar de uma coruja, e o assovio de um grilo, uma sensação de medo começava a aumentar em Renato, mas como todo homem, evitou transparecer para Melissa, que nessa altura, já estava agarrada em seus braços.

Quando finalmente terminaram a volta, perceberam um pequeno corcunda vindo em direção ao carro, nessa hora o medo de Renato já estava saindo para fora do corpo.

_ Boa noite, Senhor. Você sabe onde encontro o coveiro?

_ Boa... Está falando com ele.

_ Há ,desculpa, o senhor é o coveiro, muito prazer, Renato.

_ Prazer Melissa, estávamos te procurando, minha mãe te ligou hoje de tarde, somos os responsáveis por organizar o enterro e o velório de hoje.

_Hã, claro, você está certa, o velório de hoje, do sr...

_ Emanuel, meu padrinho.

_ Sim, ele mesmo, o Sr. Emanuel_ Renato começou a se sentir desconfiado, por alguma razão o corcunda não parecia saber o que estava acontecendo_Vocês precisam ir falar com o agente funerário, vocês podem encontrar ele ali do outro lado daquela construção.

(O prédio que parecia um colégio, e lá vamos nós...)

_ Do outro lado fica o velório?

_Exatamente, todo o prédio é um antigo colégio, todas as salas são utilizadas para velar os corpos, em geral, não são muito ocupadas, mas essas salas fazem parte do velório.

(Perfeito, sem dúvidas, era um colégio, lá vamos nós, colégio e velório, os piores pesadelos das crianças, agora entendo porque o garoto não queria ir para o cemitério)

Deram a volta no colégio e encontraram a entrada para o velório, ainda era possível ver o portão antigo de um colégio, só que agora com vidros na entrada e com diversas flores.

A porta estava aberta, quando entraram a sala estava deserta, começaram a andar em direção ao homem, escutaram uma voz ao fundo.

_ Ninguém deveria ir ao cemitério... Vocês não deveriam ir ao cemitério...

Renato só teve tempo de sentir uma pancada na cabeça enquanto sua visão ficava totalmente escura.

Sua cabeça estava doendo, tudo parecia confuso, sentiu uma dificuldade imensa para conseguir abrir os olhos, quando finalmente despregou suas pupilas, estava em uma sala escura, e úmida, olhou para o lado e percebeu que melissa estava amarrada ao seu lado.

Quando olhou para frente, viu um pequeno garoto surgindo na luz.

_ Eu avisei.... Meus pais me abandonaram, para ir ao cemitério... o colégio me abandonou para ir ao cemitério todos que conheço me deixam para ir ao cemitério e não voltam mais... AGORA É A VEZ DE VOCÊS NÃO VOLTAREM MAIS.

Apesar do pânico, a ultima coisa que Renato se lembrou foi de uma notícia que havia lido em um jornal há muitos anos...

Irmãos matam todos as pessoas em colégio.

Depois de sofrerem bullying por anos dois irmão se revoltaram com as crianças da cidade e resolveram tomar uma atitude extrema, devido a uma deformidade(corcunda) o irmão mais velho sofria piadas de todos do colégio, apesar de não ter a deformidade o irmão mais novo também sofria piadas por ser irmão de um corcunda.
Juntos eles fecharam os portões do colégio e queimaram todos que estavam dentro, mais de 40 crianças e 7 funcionários foram mortos por essa cruel ação dos garotos perturbados, o irmão corcunda cometeu suicídio na saída do colégio, em frente ao cemitério, já o mais novo, ainda mais cruel, foi até sua casa na beira da estrada e matou seus pais, antes de também cometer suicídio.

Essa sem dúvida foi uma das maiores tragédias que já tivemos no Brasil.



    






Introdução ao Blog

Olá caro leitor, seja bem vindo ao Blog.

Como o nome já diz, esse blog foi a forma que encontrei de colocar no papel, as histórias loucas que passam pela minha cabeça, os sonhos confusos e principalmente as experiências passadas(claro, colocando um pouco mais de drama).

Para aqueles que não me conhecem, meu nome é Vinícius Bianchi Prado, 23 anos, graduado em Ciências Contábeis pela Universidade de São Paulo. Atualmente estou trabalhando com vendas na P&G, (sim, todo vendedor adora contar histórias, e diga-se de passagem, quanto mais fantasiosa for, melhor).

Criei o Hábito de contar histórias ainda jovem, adorava as rodas de amigos, onde sempre surgiam contos bizarros, dos mais variados estilos. Por mais que eu gostasse de escutar todos os temas, sempre tive um fascínio por histórias de terror, a sensação de ter medo de algo que você sabe que é ficção e que foi inventado por algum colega, justamente para te amedrontar, é impagável. Quem nunca saiu de um cinema, ou terminou de ler um livro com aquele pensamento: _Sou a pessoa mais estúpida do mundo, por que infernos eu resolvi assistir esse filme? vou perder um mês de sono lembrando daquelas cenas) e por mais que você se sinta péssimo por ter assistido e prometa nunca mais voltar, assim que o próximo filme é lançado, lá está você novamente na fila do cinema, desesperado para ter medo de novo.
Acredito que a sensação de adrenalina que o medo nos causa, seja o real motivo por esse nosso interesse, ou apenas a curiosidade de saber o que está na escuridão. 

Esse Blog dedico a todos que já escutaram alguma história minha (seja de terror ou não) e principalmente para meus primos, que já passaram por alguma sessão de histórias, que já perderam o sono, já choraram, já ficaram doentes, ou simplesmente gostavam de escutar cada detalhe dessas histórias.


OBS. Essa é a primeira vez que realmente passo histórias para o papel, já tentei escrever livros, mas sempre sem sucesso, principalmente por causa da dificuldade de colocar os pensamentos em uma folha de papel, e eles continuarem interessantes, estou aberto a qualquer feedback, seja ele construtivo ou fodeback, ambos serão bem vindos.

OBS.2. Como disse na introdução, cada conto surgiu de algum lugar, vou colocar uma breve legenda, abaixo, se algum dia tiver curiosidade em saber a história real ou algum detalhe da origem do conto, fique a vontade para perguntar :)

(R) Realidade adaptada
(S) Sonho
(I) Imaginação
(L) Lendas urbanas
(H) Histórias que me contaram.